
CIGANOS NA HISTÓRIA DO BRASIL (1568-2005)
E SUA INFLUÊNCIA NA MÚSICA E NA DANÇA POPULAR
(Com respigos de folclore, poesia e glotologia)
Asséde Paiva Oliveira[1]
Rev. Acir Reis
Resumo:
Palavras-chave: Ciganos, escravos, folclore.
Referimo-nos aos ciganos no Brasil e esclarecemos várias questões como: De onde vieram? Quando vieram? Por que vieram? Onde foram estabelecidos? O quê comerciavam? Sua influência na expansão territorial, política, música, poesia e na dança. Onde entram no folclore. Focalizamos principalmente sua participação no comércio de escravos. Debret (artista francês que aqui esteve) não viu; se viu, omitiu que portugueses e brasileiros comandavam o tráfico negreiro. E Debret se tornou fonte de referência para os ciganólogos pósteros, que não se deram conta de que os ciganos, excluídos ontem e hoje, jamais poderiam ser grandes ou pequenos traficantes de escravos.
Abstract
Keywords: Gypsies, slaves, folklore.
This work is about the presence of gypsies in Brazil and explains several questions as: where did they come from? When did they come? Why did they come? Where were they established? What kind of businesses did they were involved? Their influence in the our territorial expansion; politics, music, poetry and in the dance. Their contributions to the folklore. We focused mainly on their involvement in the slaves trade. Debret (the French artist) omitted that Portuguese and Brazilians commanded the slave traffic. And Debret became a reference source for the gypsies researchers, that didn't perceived that the gypsies, excluded yesterday and today, couldn’t ever be a big or a small slave dealer.
DEFINIÇÃO
Cigano. [do grego bizantino athinganos, pelo fr. tzigane ou tsigane.] S. m. 1. Indivíduo de um povo nômade, provavelmente originário da Índia e emigrado em grande parte para a Europa Central, de onde se disseminou, povo esse que tem um código ético próprio e se dedica à música, vive de artesanato, de ler a sorte, barganhar cavalos, etc. [Designam-se a si próprios rom, quando originários dos Balcãs, e manuche, quando da Europa Central.] Sin.: boêmio, gitano, calom. (Novo Dicionário Aurélio, Século XXI, p. 470)
Escrever sobre ciganos é tarefa árdua, alguns pensarão que é tema perfunctório, mas sabendo-se que é uma etnia com 300 a 800 mil indivíduos no Brasil, mudamos de opinião. Vale o esforço. Pesquisei, analisei, busquei, manuseei tudo relacionado com cigano. Agora, submeto o resultado da busca à apreciação dos doutos leitores e leitoras...
E louvando em um dos maiores ciganólogos brasileiros: “...o cruzamento com as três raças existentes efetuou-se, sendo o cigano a solda que uniu as três peças de fundição da mestiçagem atual do Brasil”. (Mello Morais Filho, Os ciganos no Brasil, p. 27)
E vou afirmar agora e em outras páginas deste trabalho que cigano nunca foi escravista e que levou a culpa sem reclamar.
Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’ escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te lancei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...
Que tem este poema e os ciganos em comum? Há estreita relação. Primeiramente, o poema é de Castro Alves[2] (1847-1871), em Vozes d’África. Inicio por ele porque diz muito. É uma metáfora que lembra Jesus pregado na cruz, quando, segundo o Evangelho, em desespero e dor teria perguntado: “Pai, por que me abandonaste?” Castro Alves, com sua vibrante poesia, fez um apelo à sensibilidade dos homens para que cessassem o comércio hediondo dos escravos.
Castro Alves tem descendência cigana. Está em Gilberto Freyre[3] (1900-1987) que, aliás, só fez em sua obra esta citação favorável aos ciganos. O grande sociólogo, autor de Casa-grande e senzala; Sobrados e mocambos e muitos outros livros sócio-antropológicos, é bastante cáustico com os ciganos.
Ainda Castro Alves, que em seu grande poema: Navio negreiro, nos dá uma pista quem eram os comandantes dos tumbeiros (navios que traziam escravos para o Brasil). Em certo ponto do seu poema, ele canta: “Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança...” Então a resposta a uma dúvida está aí: Os navios negreiros, tumbeiros eram brasileiros, portugueses e outros, sob a bandeira do Brasil. Incrível! Há quem diga que os ciganos eram donos desses tumbeiros. Gastão Cruls, por exemplo. Outros também afirmaram assim e todos erraram. Alberto da Costa e Silva[4], em seu livro: Um rio chamado Atlântico, registra, no capítulo Na margem de cá, p. 158, colaboração de Eduardo Portela, o seguinte: “Os negreiros tinham a maioria de suas tripulações formadas por marinheiros negros...”
Corroborando esta afirmação, recentemente foi lançado livro com título De costa a costa[5], onde se estuda em minúcias as tripulações do tráfico negreiro, na parte II, pp. 159-184. É só consultá-lo e convencer-se de que ciganos apenas foram bodes expiatórios no caso do tráfico de negros.
Em História dos ciganos no Brasil, Rodrigo Corrêa Teixeira[6] (inédito) nos informa que, para o Brasil, vieram ciganos ibéricos e não-ibéricos, ou seja, calom e rom respectivamente. O rom[7] que aqui chegou mais cedo teria sido Jan Nepomuscky Kubitschek, que trabalhou como marceneiro no Serro e em Diamantina. Casou-se com brasileira. Em seu matrimônio com Teresa Maria de Jesus Aguilar, teve três filhos. O primeiro foi João Nepomuceno Kubitschek, que viria a ser um destacado político; o segundo Carlos Kubitschek e o terceiro foi Augusto Elias Kubitschek, um comerciante com escassos recursos, que viveu toda sua existência em Diamantina; casado com Maria Joaquina Coelho. Uma de suas filhas: Júlia Kubitschek, casou-se com João Cesar de Oliveira e foram os pais de Juscelino Kubitschek[8] (1902-1976), que depois se tornou presidente do Brasil. A árvore genealógica de JK, até o bisavô, está no site diamantinanet.com.br/juscelino/links/gene_materna.html
O definitivo depoimento sobre a origem cigana de Juscelino foi feito pelo jornalista João Pinheiro Neto (ex-Ministro) às entrevistadoras: Aspásia Alcântara Camargo, Helena Maria Bousquet Bomeny e Maria Luísa d’Almeida Heilborn, para o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de onde extraí este texto ipsis litteris:
Como o senhor definiria Israel Pinheiro? [Pergunta das entrevistadoras].
“O Israel basicamente é um grande capitão de obras, um grande construtor, um grande realizador, também sem nenhuma preocupação de ordem ideológica. Um pragmático parecido com o Juscelino em muitos pontos, menos na simpatia pessoal. Se bem que quando o Israel queria também era simpático; mas o Juscelino era sempre simpático. O Juscelino era um cigano. Quando fui à Tchecoeslováquia perguntei se havia Kubitschek lá. Aliás, a D. Sara já tinha estado lá e visto no catálogo que há centenas de Kubitschek. Ele era da Boêmia, daí gostar de violão, de música, de dança, de mulher.”
Possivelmente, Cecília Meireles[9] (1901-1964), grande poetisa, tinha em suas veias sangue cigano. Vários artistas, citando-se Carequinha, Wagner Tiso, Guerra Peixe (grande violinista) entre muitos, descendem de ciganos.
Há provas contundentes de que portugueses comandavam o tráfico negreiro. Na Biblioteca Nacional, encontram-se dois documentos definitivos: No primeiro, 99D,17,9, em Obras raras, negociantes lusos reclamam perdas e danos. Tem este título: “Das Perdas e Damnos experimentados pelos Negociantes Portugueses, em consequencia dos apresamentos e feitos pelas forças Britannicas nos Navios empregados no resgate de escravos até trinta e hum do mez de Maio de 1814.” [Grafia do original]. Segue relação de 35 navios. O outro documento é uma petição de negociantes de escravos contra o estabelecimento da quarentena de navios negreiros. Começa assim: “Dizem os negociantes desta Praça, sócios e consignatários dos de África, que...” [FBN-26,4,112, Seção Manuscritos]. Subscrevem quarenta e seis traficantes, todos portugueses.
Não há provas definitivas de que os ciganos participaram das “Entradas e Bandeiras” que tanto alargaram o território nacional. Mas é possível que sim, pela maneira de ser do cigano: sempre mudando, viajando... O que condiz com o sistema das bandeiras. Há esta pista em Dornas Filho[10] (1902-1962) “Moradores do termo de Mariana e dos distritos de Tapera, Turvo e Calambao representaram contra a ‘bandeira’ do capitão José Leme da Silva e seus irmãos, acusando-os de acoitadores de ciganos”. E também a magnífica frase do prof. Maffesoli[11], que a seguir transcrevemos: “Há belas páginas de Gilberto Freyre em Casa-grande e senzala, em que fala de nômades que chegam ao Brasil, são vagabundos, condenados pela justiça etc. e ao mesmo tempo é graças a essa espécie de barbárie que o Brasil pôde existir”.
Os ciganos vieram para o Brasil oficialmente em 1574, quando um certo João de Torres, tendo sido condenado às galés, fez petição ao rei dom Sebastião para que comutasse sua pena para degredo perpétuo no Brasil, visto que estava doente e não agüentaria as lides do mar. Entretanto, oficiosamente já estavam aqui desde 1568, quando para cá veio João Giciano, mulher e quatorze filhos[12].
Existiam disposições régias proibindo entrada de ciganos em Portugal e que aqueles que lá estavam, se intentassem manter seus modos de vida e sua língua, deviam ser expulsos para o Maranhão. Em 27 de agosto de 1865, Ordenações do Reino diz o seguinte: “Fica comutado aos ciganos o degredo da África para o Maranhão.” Em 15 de julho de 1686, Dom Pedro II, rei de Portugal, determinou que os ciganos vindos de Castela fossem exterminados e que filhos e netos (de ciganos) portugueses, tivessem domicílio certo ou enviados para o Maranhão.
Dom João[13] V (1689-1750), rei de Portugal, decretou a expulsão das mulheres ciganas para o Brasil. E no mesmo tom, anos a fio, promulgaram-se dezenas de leis, decretos, alvarás exilando ciganos para o Brasil. E eles aportavam no Maranhão, Recife, Bahia e Rio de Janeiro, onde estavam os núcleos coloniais mais importantes, mais desenvolvidos. O mesmo rei, Dom João V, proibiu-os de falarem o romani (língua dos ciganos). Os ciganos do Rio de Janeiro, foram para o sul e de lá para Uruguai e Argentina. Mas também vieram da Argentina para nossas plagas. O testemunho que se segue é valioso:
Note-se que os ciganos (não os do Rio) usaram as grandes estradas dos tropeiros e justamente entraram também no Brasil, pelo Rio Grande do Sul. Já fiz notar que suas barracas ao contrário das dos tropeiros, tinham os fundos e não a frente para o caminho, eram grupos étnicos fechados, e ao contrário dos viandantes brasileiros, tão hospitaleiros e nada amigos de lograr, a não ser na barganha de animais: Barganha, um ganha e outro arreganha[14].
Na guerra dos Farrapos, os legalistas apelidaram os revolucionários pejorativamente de maragatos, insinuando a identidade estrangeira dos revoltosos federalistas, que vinham do exílio no Uruguai, e entravam pelo Rio Grande do Sul à frente de um exército. Isso porque no Uruguai o termo nominava os descendentes de imigrantes espanhóis oriundos da Maragateria de León, onde eram tidos como ciganos.
Especulando um pouco, as mais importantes contribuições dos ciganos para nosso país foram negligenciadas pelos historiadores, qual seja, de co-participantes da integração e da expansão do território nacional. De norte a sul, de leste a oeste, em todos os lugares, lá estavam eles, viajando, negociando animais, arreios, consertando engenhos, alambiques, soldando tachos, levando notícias, dançando, executando atividades circenses, trocando objetos vários e lendo a buena-dicha. Mas como eram? Como viviam? Onde ficavam? Na verdade eram e são como hoje: alegres, prudentes, desconfiados, arredios e excelentes negociantes. Hoje não vendem tantos cavalos; entretanto, quando saíram de Portugal, nos primeiros anos após o descobrimento, à cata de aventuras, aportando em terras de Pernambuco, traziam grande número de eqüinos de raça árabe. Infiltrando esses animais pelo Piauí e por todo o norte brasileiro, formaram as bases ancestrais dos nossos cavalos nordestinos, que apresentam todas as características do sangue árabe. Agora, os ciganos vendem ferro velho, rádios, aparelhos de som, carros usados, sucatas e... lêem a sorte. Como sempre, não têm boa vida aqui, nunca tiveram. Jamais foram recebidos com festas.
Gustavo Barroso[15] (1888-1959), em seu texto A raça, admite que os ciganos tiveram grande influência no povoamento do Ceará. Está em seu livro Aquém da Atlântida, p. 268: Da,í passaram para a América e para o Brasi,l especialmente para o Ceará, onde várias de suas tribos forma despejadas por ordens régias ao tempo do grande Marquês de Pombal. E nesse fato muitos querem ver a fonte do espírito errante, do caráter nômade, da alma andeja dos filhos da terra de Sol. Este tema até hoje permanece obscuro, merece ser aprofundado. O governo de Pernambuco não só os expulsou para o Ceará, como também os encarcerou na Ilha de Fernando de Noronha (1739). Isto é fato, pois há uma belíssima poesia, a Cigana do cajueiro, coligida por F. A. Pereira da Costa[16] (1851-1923), adiante transcrita.
No Piauí, ocorreu um massacre de ciganos em 1912. Foram também expulsos para Sergipe D’el Rei. E nas Alagoas, uma curiosa proposição mandava que eles fossem evacuados/exterminados pelos juizes de paz.
Portaria de 1718 mandava prender todo cigano que andasse pela Bahia, com ou sem licença d
o governo e, na Carta de 1725, mandava caçar todos ciganos que resistissem; isto é, que fossem passados pelas armas. Apesar da perseguição interminável, o número de ciganos na Bahia cresceu tanto que foram obrigados a concentrarem-se em um bairro, a Mouraria, e depois em outro, Santo Antônio do Além do Carmo.
Com relação a Minas Gerais, terra proibida a estrangeiros, e os ciganos eram assim considerados, eles enfrentaram a situação e, naturalmente, como todos os homens e mulheres da época, procuraram enriquecer-se com ouro e diamantes, quer garimpando, quer negociando com garimpeiros. Existem bons livros sobre ciganos em Minas Gerais, entre eles exalta-se o de João Dornas Filho: Os ciganos em Minas Gerais. Mas quem o lê verifica a via-crúcis dos ciganos em MG. Não tiveram sossego, jamais. Perseguidos sempre, andavam de periferia em periferia das cidades, acampavam nos inóspitos lugares e negociavam ou montavam seus teatros mambembes e liam a buena-dicha. Eram detestados em Minas desde 1761, mas claro, estavam lá antes disso. Dornas Filho é quem nos indica que os ciganos procediam de todos os lados: de Belém do Pará, Maranhão, Ceará, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro, Pernambuco/Recife, confirmando a tese de que estavam em todo território brasileiro, desde cedo, e ajudando a ampliá-lo. Andando sem parar pelas estradas que não passavam de trilhas, foram conhecidos também como turcos, gringos e mascates. E quanta culpa levaram por causa dessa confusão étnica e profissional!
Não deixaremos de registrar uma carta de São Sebastião, aos 29 de julho de 1734, enviada pelo jesuíta italiano Domenico Capacci, eminente astrônomo e cartógrafo, dirigida a Martinho de Mendonça Pina e de Proença, governador da capitania de Minas Gerais que começava assim: “Um cigano a outro cigano, muita saúde e muita vida[17]”. Parece que o jesuíta era mesmo cigano, quanto ao governador, dúvidas temos, pois foi um intransigente perseguidor de ciganos, com atestam diversas cartas trocadas entre ele e Gomes Freire de Andrade, Capitão-general e governador da capitania do Rio de Janeiro, que teve sob suas ordens a capitania de Minas Gerais a partir de 25 de março de 1735[18].
Ciganos que aportaram no Rio de Janeiro foram expelidos para o Valongo[19] em 1771, local pantanoso e mais infecto da cidade. Leia Vivaldo Coaracy[20]:
No ângulo cujos lados as duas propriedades formavam ficava uma área que parece ninguém pretendera por inaproveitável. Constituída de brejos e alagadiços que as menores chuvas inundavam, tinha fama de pestilenta pelos miasmas que dela exalavam. Os pauis que formavam tornavam-na imprópria tanto para a lavoura como para que nela se erigissem construções permanentes. Nesse pantanal abandonado e desprezado, onde ninguém os viria incomodar, ergueram os seus míseros e toscos casebres de moradia os ciganos.
Quando a real história do Valongo for escrita, vão reconhecer o pioneirismo dos ciganos, pois foram eles que desbravaram aqueles pântanos onde hoje se situam os bairros Saúde, Gamboa e rua do Livramento. Mais tarde o comércio de escravos foi desviado da Rua Direita, hoje Primeiro de Março, para o Valongo e, então, os ciganos passaram a ser culpados pelo escravismo. Depois, com o saneamento da cidade, foram expulsos do Valongo, dispersaram-se, alguns se tornaram andadores do rei ou meirinhos honestíssimos, como nos diz Mello Morais Filho[21] (1844-1919). Inclusive participaram da polêmica contra o Estado, quando da eliminação do bairro de Catumbi, quando tiveram que conciliar duas posições antagônicas: a de meirinhos e a de residentes.
Os ciganos no Rio de Janeiro foram mais que meirinhos ou negociantes ou leitores de buena-dicha, também influíram na música e na dança popular. Faz parte do nosso imaginário e podemos afirmar que, quando falamos 'cigano', pensamos música.
Leiam no ótimo artigo de Ary Vasconcelos[22], na revista Piracema n. 1, ano 1, p. 107, o seguinte:
... e posso hoje, em primeira mão para Piracema [revista], oferecer dados novos que modificam e ampliam a história do samba, dando aos ciganos uma importância fundamental, até hoje totalmente desconhecida, e reciclando toda a geografia do gênero. Segundo informações de Pixinguinha e João da Baiana, cinco eram os principais redutos do samba na segunda década do século. [Interessa apenas o n. 1, para o caso em tela: A casa da tia Ciata].[23] Pelo Telefone nasceu na casa da tia Ciata. [...]. É que Pixinguinha e João da Baiana me revelaram [ao Ary Vasconcelos] que havia um grupo de compositores, cantores e músicos ciganos que cultivavam o samba com grande maestria e que trouxeram também uma contribuição importante, talvez decisiva, ao gênero. Eles mencionaram um deles ¾ o Saudade ¾ excelente cantor de sambas e que também freqüentava a casa da tia Ciata.
Em continuidade, colhi em Vozes[24], no excelente artigo do ciganólogo Ático Vilas-Boas da Mota[25], pp. 527-30, sob o título Ciganos: folclore e animais.
A presença dos ciganos no folclore brasileiro ainda não foi totalmente dimensionada nem estudada de maneira sistemática, isto é, o que dela se sabe só nos chega de maneira esparsa ou fragmentária, valendo ressaltar que tal não significa inexpressividade. [...] Acredito, no entanto, que a influência cigana em nosso folclore, é muito maior do que à primeira vista se poderia imaginar.
Na internet, sabendo-se pesquisar e separar o joio do trigo, ficamos ciente de que alguns dos maiores nomes da Mangueira foram ciganos, estavam de passagem por lá, que é o caso do imerecidamente esquecido Lauro dos Santos. Ver: www.academiadosamba.com
Quem diria?! Tem cigano no samba, que aliás é o título do artigo de Ary Vasconcelos na revista Piracema.
A internet é prodigiosa, torrencial, sem dúvida! No sitehá o seguinte: “Sabe-se da existência de um violão de sete cordas usado no século XIX na música popular russa. Ora, muitos ciganos (russos, inclusive) imigraram para o Rio de Janeiro neste período, concentrando-se no bairro do Catumbi”. Sugere-se que foram ciganos os introdutores do violão de sete cordas no Brasil.
Em trabalho recente e erudito, Samuel Araújo[26] e Antônio Guerreiro[27] apresentaram e defenderam a tese de que há muita contribuição cigana na música popular brasileira, citando Rugendas, in Viagem pitoresca através do Brasil, que o lundu era, na coreografia, no sapateado e na instrumentação, carregado de nuanças das danças ciganas. Que interessante!
Encontra-se em As mulheres de mantilha, p.110, de Joaquim Manoel de Macedo, informação de que, bem ou mal fundamentado, o lundu seria “imitação da zarzuela espanhola”, o que nos leva de volta aos ciganos e seus trejeitos.
Também está na internet em inúmeros sites:
Uma das brincadeiras mais estimadas no carnaval do Recife é a La ursa, cujas origens encontram-se nos ciganos da Europa que percorriam a cidade com seus animais, presos numa corrente, dançando, de porta em porta, em troca de algumas moedas, ao som da ordem: dança la ursa.” [28]
Mostradores de ursos também eram encontrados no interior de Minas Gerais, segundo Dornas Filho.
Se observarem nossas baianas e suas saias rodadas, e se compararem com usos dos locais de origem dos escravos da África, ficarão surpresos em verificarem que daquelas plagas não vieram os costumes de saias amplas, rodadas e longas, tudo é originado das nossas ciganas, aqui no Brasil. Nem hoje, nem ontem, povos africanos contribuíram com tais ou quais tipos de saias. E vamos pedir socorro novamente ao prof. Ático Vilas Boas da Mota[29]:
...o traje cigano tem servido, ao longo dos tempos modernos brasileiros, de sugestão para fantasias de foliões, além de motivos para carros alegóricos durante nossos carnavais, a exemplo de que vem acontecendo com o traje da ‘baiana’, estilizado pela famosa cantora Carmem Miranda (1909-1955). Evidentemente, estes últimos exemplos se enquadram no metafolclore ou nas denominadas manifestações parafolclóricas.
No Folclore pernambucano, in Anais Pernambucanos, de Francisco Augusto Pereira da Costa, encontramos referências a ciganos nos chamados pastoris (pequenas representações dramáticas com dança e canto, realizadas diante de presépio entre o dia de Natal e de Reis, inspirados nos autos da Natividade e nos vilancicos portugueses), onde algumas ciganas fazem parte do auto, declamando poeticamente a sorte do menino Jesus. Transcreve-se integralmente porque é muito comovente:
Somos ciganas do Egito
Que viemos de Belém,
Adorar a um Deus menino
Nascido p’ra nosso bem...
Atenção peço, senhores,
Para esta breve leitura,
E uma atenção piedosa
A toda e qualquer criatura.
Deste menino formoso
Vindo de origem divina,
Em suas mãos pequeninas
Eu vou ler a sua sina.
Dai-me licença senhora,
Guiai o meu pensamento,
Para dizer o que sinto
Para ler com acento.
Eterno rei desses céus,
Que dando ao mundo alegria,
Por prodígios só nasceu
Da Santa Virgem Maria.
Redentor da humanidade
Nascido p’ra nosso guia,
Mudou o céu em presépio
Transformou a noite em dia.
Se a boa dita e a nossa,
Quereis meu bem, que vos diga,
É a mesma que bem sabeis,
Mas permitais que prossiga.
Dai-me soberano infante
Dai-me esta linda mãozinha,
E vereis que uma cigana
A vossa sina advinha.
Primeiramente a meus olhos
Vejo com suma alegria,
Que sois com um grande extremo
Querido de uma Maria.
E prevenida ela um dia
Pelo supremo juiz,
Fugirá cedo convosco
P’ra o mais remoto país.
E decorridos doze anos
De tão doce companhia
Terás milhares de penas
Sem lhe escapar um só dia.
Enquanto andardes no mundo
Sereis sempre perseguido,
Mas, pelos prodígios divinos
Jamais vós sereis vencido.
Se um amigo no rosto
Certo dia vos beijar,
Às mãos cruéis da justiça,
Ele vos há de entregar.
Outro vos há de negar,
Em perguntas à porfia,
Respondendo que não sabe
Quem sois vós, minha alegria.
Não tereis vida mui larga,
Pois, com as mãos estendidas
Atirarão numa cruz
Uns ingratos homicidas.
E depois de redimirdes
A humanidade querida
Vencereis a própria morte,
Lograreis a eterna vida.
Se porque digo a verdade
Mereço eu uma esmolinha,
Dai-me só a vossa graça
E a todos desta lapinha.
Também conhecemos a linda fábula do folclore da Ilha de Fernando de Noronha, que diz respeito a uma cigana e se intitula O cajueiro da cigana. In Francisco Augusto Pereira da Costa, 1887, FBN II-418,3,26.
Conservara as tradições
que esbelta e linda cigana,
tinha aqui, pobre cabana
nestas ermas solidões;
certo, a buena-dicha lia,
porém disto não vivia.
Mas certos amores vendeu...
era bela o mais quem sabe?
Dizer a mim não me cabe,
depois dizem que morreu,
e por memória deixou
esta árvore que plantou.
Desde então, nesta paragem,
junto d’este cajueiro
apareceu ao caminheiro
um eqüestre personagem;
fronte altiva e marcial,
vestido de general.
Outras vezes, diz a gente
que um vulto — rara beleza,
pelas formas — com certeza,
mulher, — alma padecente
se vê perdida na estrada
como que vai de jornada.
Não se sabe o que julgar
dessa estranha aparição:
mas, afirmam que, um caixão
se se cavam há de achar
que é férreo cofre, um tesouro,
que contém da Holanda o ouro.
São antigos cabedais
que ajuntaram os holandeses;
herança dos portugueses,
amontoados na paz,
e, depois, de imiga guerra,
escondidas sob a terra.
Morreram... talvez — quem viu?
e essas imensas riquezas,
n’estas imotas devesas,
pela terra se sumiu:
Hoje, buscam uma oração,
talvez, — por d’ouro um caixão.
Quem sabe? mas, o que é certo,
verdade que muitos contam,
e vários fatos apontam
É que, d’esta árvore perto
uma noite — de passagem,
vira um preso uma visagem.
Meia-noite, mais ou menos
ouviu confuso tropel:
Olha, e lá avista um corcel
galopar nestes terrenos;
após outros mais atrás,
três ao todo, não eram mais.
E a cavalgada se avança,
pára junto do cajueiro,
num montava um brigadeiro,
galopa n’outro ordenança
n’outro alfim fradalhão
em guisa de capelão.
Trajava o velho general
gibão e armado chapéu;
o capelão — solidéu,
e o seu burel monacal:
E que por ser d’ordens passa
cimeira, lança e couraça.
O general se aproxima,
e a mão levando da espada
gesto frio — vista irada,
medir-lhe de baixo acima,
depois dá-lhe uma moeda,
e da vereda se arreda.
Assombrado quis correr,
no chão súbito caiu...
quando, após, o olhar abriu,
começava a amanhecer:
Todo o campo era deserto
mas estava de arv’re perto.
Depois, mais não viu tornar;
ou a outros revelavam
a causa porque penaram
e foram, alfim, descansar:
pois, após isto que aponta.
quarenta invernos já conta.
Contudo, inda há quem quer
que, caminho do Sueste*
arrastando uma’alma veste,
passa uma noite uma mulher.
Mais, não afirmo nem nego,
e a descrição isto entrego.
*É assim denominado o mais pitoresco e agradável sítio da ilha, necessariamente pela posição que ocupa, relativamente aos pontos do compasso.
Na coleção de estudos brasileiros, série Marajoara, no 20, lemos no Baile do Meirinho estes trechos inclusos em Bailes pastoris na Bahia, coligidos por Mello Morais Filho, Manoel Quirino, J. N. de Almeida Prado e Carlos Ott:
Surge uma cigana mercando:
As chitas finas e boas,
cambraias, lenços também;
de mimo eu vou levando
para as portas de Belém.
Venderei algumas
a quem encontrar,
menos as mais finas
que são p’ra levar.
Meirinho —
Alto frente, venha cá;
por você já esperava;
pois sabia que seus furtos,
você por aqui mercava.
Cigana —
Ladra, era sua mãe,
por todos reconhecida.
Seu pai, o seu ofício,
era andar na mesma lida.
Assim mesmo, andava sempre,
com algibeiras furreca;
seu sustento era cachaça,
baleia, feijão, muqueca.
Na roça de pai Antônio
Laranja você comprou
há seis meses desta parte,
o dinheiro não levou.
E assim meu camarada,
vá-se daqui andando,
vá procura quem for tola,
vá furtando, vá roubando.
Meirinho —
Assim atrevidamente,
insultas a categoria?
Hei de mostrar o valor,
da minha supremacia.
Cigana —
Largue minha capona
Me solte, senhor João;
não comece a me enfezar,
olhe que lhe solto a mão.
Existem outras versões de pastoris, porém, julgo que as apresentadas são suficientes para convencer da influência dos ciganos nestas festas populares, ingênuas.
Um dos costumes dos ciganos é o de apresentar o recém-nascido à Lua para tê-la como madrinha do filho, atrair boa sorte, proteção e saúde. A criança é erguida acima da cabeça pela avó ou tia, que recita:
Lua, Lua, luar,
Toma teu andar,
Leva esta criança,
E me ajuda a criar,
Depois de criar
Torna a me dar!
O texto supra é encontrado em Luís Câmara Cascudo, (Dicionário do folclore brasileiro, 2a edição, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro, 1962, p. 431). Ele nos informa que é herança de Portugal, mas temos indícios de que foram os ciganos que nos legaram este costume. Os que vieram de Portugal nô-lo trouxeram.
Existe no Brasil Central uma cantiga de roda que é inspirada nos ciganos:
Chora, chora, chora piranha,
Torna a chorar, piranha
Põe a mão na cabeça, piranha
Põe a mão na cintura,piranha
Faz um requebradinho, piranha
Mais um sapateadinho, piranha
Diga adeus ao povo, piranha..
Pega na mão de todos, piranha!
Piranha foi à missa, piranha
A saia dela caiu, piranha
Estava perto dela, piranha
E ela não me viu, piranha.
(In Vila Boa, História e folclore, Regina Lacerda; in Câmara Cascudo, Dicionário do folclore brasileiro)
A tal piranha faz o que se lhe manda, chorando, pondo a mão na cabeça, etc. Por fim, conseguindo agarrar a mão de qualquer dos da roda, puxa-o para o meio do círculo, tomando-lhe o lugar. Assim se continua.
Na literatura de cordel, satã, cigano e nova-seita (membro da religião protestante) em geral, compõem a tríade do mal. Extraímos esta sextilha em Violeiros do norte, in Leonardo Motta[30]
Pode-se achar sogra boa,
Padre desinteressado,
Italiano Inocente,
Cigano sério e honrado,
O que nunca ninguém viu
Foi nova-seita corado.
Alexandre José de Mello Morais Filho, autor de Os ciganos no Brasil e Cancioneiro dos ciganos,[31] faz, nesta obra, pp. 38-41, extensa e minuciosa descrição de uma festa de ciganos (bródio/abieu), no beco do Bem-bom, Rio de Janeiro.. Ele chama a dança de fandango. Transcreve-se parte.
O anu tem quatro figurantes: duas moças e dois homens.
A viola dá afinação mais alta, os cantadores variam as quadras, os velhos animam os pares com outros ditos:
— Bota pra baixo, menino! tudo por baixo!
Aos clamores destes recresce o entusiasmo, os violeiros tocam mais ativos e o coro repete o estribilho popular:
O anu é pass’o preto
Só faz casa no capão...
— Mistô![32] mistô! bradam os idosos ciganos, esfregando as mãos, batendo palmas estrepitosas.
Os figurantes requebram duas vezes, param, contemplam-se; as castanholas troam, as violas plangem acompanhando as trovas, as moças dançam juntas e depois os seus vis-a-vis.
Quando estes, isolados no salão, rompem no sapateado veloz, os instrumentos bambeiam no fandango, as cantigas são mais ternas, e, daqui, dali, d’acolá, sai um — bota pra baixo! — corta jaca! — bravo da letra! — que exprime o júbilo e a glorificação.
Apresenta-se esta dúvida: Foram, os ciganos, criadores desta dança ou somente a divulgaram?
O Dicionário musical de frei Pedro Sinzig[33] (1876-1952) ensina que: Fandango, palavra importada da Espanha, onde designa uma dança viva e voluptuosa, em compasso ¾ ou 6/8... A coreografia espanhola do fandango consta de sapateados e meneios; os dançarinos, evoluindo aos pares não enlaçados, mantêm os braços erguidos no alto da cabeça, tocando castanholas; o acompanhamento é feito por violões, e violinos ad. lib[34]. Com a palavra os musicólogos e pesquisadores de folclore.
Está bem provado no excelente livro de José Ramos Tinhorão[35]: Fado dança do Brasil cantar de Lisboa que houve simbiose entre o lundu e as umbigadas dos negros. Daí o fado junta não só o castanholado do fandango às umbigadas do lundu, mas também amplia o papel do canto, trocando estribilhos marcados por palavra pelo intermezzo[36] cantado...
E José de Alencar (1829-1897), em seu belo romance O Guarani, diz em um parágrafo, na 1a parte CENÁRIO: “Pouco distante, sobre uma cômoda, via-se uma dessas guitarras espanholas que os ciganos introduziram no Brasil quando expulsos de Portugal...” Note-se que a história se passa em 1604. Aditamos que o pandeiro, também, nos foi trazido da Espanha ou de Portugal pelos ciganos. A literatura[37], a iconografia[38] e a música são pródigas em exemplos de ciganos tocando este instrumento. Quanto às castanholas, é ponto pacífico: são próprias dos ciganos. Finalmente, os ciganos, pelas suas belas mulheres, são inspiração dos poetas e, em geral, dos compositores clássicos e populares: Carmen de Bizet, por exemplo. Entre romancistas, muitas vezes, os ciganos exercem papéis de vilões.
Encerramos aqui a problemática cultural dos ciganos na música e dança. Não estamos falando da dança peculiar dos nômades, isto poderia ser matéria para outro artigo.
Registra-se a valiosa contribuição dos ciganos para o circo no Brasil, tendo alguém dito que não se pode escrever a história do circo sem falar nos ciganos. A história ensina que em 1727, Dom Antônio de Guadalupe, bispo do Rio de Janeiro, com jurisdição nas Minas, pediu providências contra ciganos que realizavam “com grande aparato, comédias e óperas imorais”.
Viajantes, cientistas, aventureiros, comerciantes e militares estrangeiros que vieram ao Brasil, indiciaram os ciganos como comissários de escravos. E o português, o brasileiro e outras etnias? Até que se compreende, afinal aqueles senhores/viajantes precisavam da cooperação dos mandatários locais, para alcançarem seus objetivos. Governadores-gerais e vice-reis foram grandes traficantes. O rei de Portugal, vendo que era bom negócio, avocou o privilégio do tráfico. Mas os viajantes não viram isto, culparam os ciganos. Imaginem os ricaços da época, cheios de empáfia, poderosos, eles jamais tolerariam a verdade. Se os portos do Brasil foram abertos às nações amigas em 1808, é lógico que os “tumbeiros” foram, em esmagadora maioria, de propriedade de português ou brasileiro, cristãos-novos[39]
e/ou judeus. A corrente da escravidão é esta: Na África: ® pombeiros, tangosmanos / tangomaus ou lançados; ® No mar: os tumbeiros; ® No Brasil: comissários, comboieiros e tropeiros; e em todos os elos da corrente estavam os portugueses, brasileiros, cristãos-novos[40] e outros que não ciganos.
Um artista francês chegou ao Brasil em 1816, com a missão artística francesa e chamava-se Jean Baptiste Debret (1768-1848). Era um homem amargo, havia perdido o filho e separado da esposa. Ficou famoso por ter retratado o Brasil em 145 estampas (a maioria delas idealizadas) e por circunstanciadas descrições. Com respeito aos ciganos, ele fez três desenhos (pranchas): Mercado de escravos no Valongo; Interior de uma casa cigana e Cigano indo para a roça. Errou em todas, não retratou: idealizou/imaginou. Demonstrou ter mínimos/escassos conhecimentos sobre este povo. Foi, mais tarde, questionado ligeiramente por Bento da Silva Lisboa e J. D. Moncorvo de Ataíde, especialistas que analisaram suas aquarelas e concluíram que algumas eram verdadeiros deboches.
Felizmente, o excelente e conceituado jornalista Haroldo Ceravolo Sereza, em 6/1/2002, no caderno 2,de O Estado de São Paulo, levantou a questão: Por que Debret não teve coragem de mostrar que brasileiros e portugueses dominavam o comércio de escravos? E respondeu:
Debret coloca em duas pranchas ciganos no comando do negócio de escravos, o que é um pequeno delírio histórico — ou porque Debret não viu o óbvio, ou seja, que a elite brasileira comandava o negócio, ou porque o óbvio não podia ser visto.
Debret não iria condenar a elite e o patrão (conivente): príncipe regente; depois rei dom João VI. Assim, Debret precisava achar um responsável; pensou e criou um mito: a culpa é dos ciganos! Todos ou quase todos acreditaram nele, desde então. Tornou-se o magister dixit.
Debret, entre tantos erros, cometeu este: Na prancha do Cigano indo para a roça representou o cavalo em marcha que somente se vê em picadeiro e em quadros de elegia a Napoleão. É muito difícil treinar um cavalo para tal feito (leva-se mais ou menos sete anos para efetivar-se este treinamento) e não seria nessa marcha que iria para o campo. Ele não entendia mesmo de equitação.
Aquele que quiser se aprofundar no tema escravos/ciganos deverá ler meu manuscrito Brumas da história... RIHGB, citada, nota 1, do rodapé, onde contestamos todos aqueles que difamaram/vilipendiaram os ciganos. Concluímos, sem sombra de dúvida, que a participação dos ciganos, no comércio escravista, foi mínima, quase zero.
Em 1763, os ciganos participaram ativamente das festas em honra do primogênito de d. Maria I. Transcreve-se, na íntegra, o relato do livro Meios de transporte, no Rio de Janeiro, de Noronha Santos[41], p. 126. “Conforme a Epanáfora[42], citada por Varnhagem, constaram também estas festas de um desfile de carros das corporações de ofícios, carros e danças de ciganos que vieram com outras usanças até o século XIX...”
É histórico: grande número de ciganos acompanharam a comitiva de dom João VI em fuga para o Brasil, diante da invasão napoleônica a Portugal. Foi registrado pelo padre José Gonçalves Salvador, cognominado padre Perereca, que nas festas de casamento de dom Pedro I com dona Leopoldina, os ciganos fizeram muito sucesso com suas músicas, danças e cavalhadas, e com suas cantigas em língua própria. Ver tomo I:
... Finalmente entrarão pela Praça os Ciganos a cavalo, trazendo as mulheres na garupa; todas com ricos vestidos agaloados de ouro e prata, e, descendo dos cavalos, formarão, na frente do Camarim Real huma dança ao som de instrumentos, que foi grandemente applaudida pelo acerto, e primôr de sua execução” ...No tomo II este texto: ... E logo entrou na Praça a célebre dança dos ciganos, que compunha de seis homens, e outras tantas mulheres, vestidos todos com muita riqueza; pois tudo quanto apresentarão de ornato era veludo, e ouro, e sobre hum estrado fronteiro às Reais Pessoas executarão com muito garbo, e perfeição varias danças espanholas, que merecerão universal aceitação...
Agora, o texto de Mello Morais Filho:
Em frente do palanque real, o rico e humanitário cigano Joaquim Antônio Rabelo mandara arranjar, com maior galhardia imaginável, seu tablado de preciosas madeiras. [....] Joaquim Antônio Rabelo, a quem a história nacional talvez um dia considere como uma força das agitações políticas da independência, assim o determinara para o dançado dos ciganos, a quem ensaiara com entusiasmo artístico e vestira a sua custa [...]. Os ciganos guiando soberbos cavalos brancos arreados com igualdade e riqueza, balançando penachos implantados em discos de forma lunar, luzidos criados transpõem as barreiras. Os bailadores trazem as bailadeiras à garupa: morenas, sedutoras como as profetizas gentias [...] restabelecido o silêncio, voltaram jubilosos aos seus palanques. Preludiaram na guitarra uns acordes casados a vozes de uma cantilena em sua linguagem. A tradição olvidou a toada e as letras. Os dançarinos são aplaudidos e dom João VI, participando do agrado geral, fá-los virem a sua presença. Uma banda de música precede-os na maior ordem. Subindo o pavilhão, dois camaristas trazem, estendidos num coxim de púrpura, os prêmios que lhes eram destinados: patentes militares para os homens e jóias às mulheres. Joaquim Antônio Rabelo era sargento-mor de milícias da corte, foi-lhe concedida a mercê de melhoramentos de reforma no posto de tenente-coronel; e nomeados alferes agregados por ordenanças da corte, José Cardoso Rabelo, Manoel Lago, Antônio Vaz Salgado, Fernando José da Costa, José Luiz Mota, Baltazar Antônio Policarpo e João do Nascimento Natal.
O período de 1808-1818 foi a época de ouro dos ciganos no Brasil. Eles, olhados com bons olhos pela corte, por várias vezes foram chamados a participarem das festas de casamentos reais. Há registros que participaram do casamento da princesa da Beira com um infante da Espanha, conforme testemunho do Barão de Eschewege. Também outro evento foi registrado quando se elevou o Brasil a Reino Unido, em 1815. Tudo está nos livros de Mello Morais Filho, J. B. China (1874-1941), Rodrigo Corrêa Teixeira e outros.
Em João Dornas Filho, Ciganos em Minas Gerais, pp. 139-40 está: “Dom João VI pensou e levou a cabo a idéia de povoar com ciganos o vale do Jaguaribe, de que se origina a introdução do tracoma ou oftalmia egípcia no Brasil, principalmente no Ceará...”
[Nota: Na verdade, o tracoma nos veio da mãe África. Os ciganos também foram acusados de transmissores de lepra, agora já se sabe que a lepra, no-la trouxeram os escravos.]
No Estado de São Paulo, vários documentos atestam que os ciganos por lá passaram e lá estão. Augustin François César Prouvensal de Saint-Hilaire[43] (1779-1853) informa que topou com um grupo de ciganos em Urussanga e estabeleceu conversa com o capitão. Quando lhe disse da má impressão que traziam consigo, da sua esperteza nos negócios, o chefe respondeu-lhe: “É verdade, tentamos dar manta e, se conseguimos ou não, ficamos quietos; vocês têm a mesma intenção de nos enganar, porém quando não conseguem, espalham que foram iludidos por nós”.
J. B. d’Oliveira China[44] (1874-1941) relata as várias posturas contra os ciganos em São Paulo. Umas, mandando derrubar ranchos; outras, informando sobre ciganos vindo de Minas.
Francisca Roiz, cigana, em 1603 alimentou a comitiva do governador-geral, Francisco de Souza. Ela fora contratada pela Câmara para isso e saiu-se muito bem. Também montou a primeira loja em São Paulo. Na petição, a cigana se comprometia a ganhar apenas 10%, o que foi motivo de elogio, porque na terra paulistana imperava a idéia de lucros exagerados a curto prazo[45].
O Santo Oficio também importunou os ciganos por aqui. A doutora Laura de Mello e Souza, da USP, informa que Heitor Furtado de Mendonça, em sua 1a Visitação, em 1591, recebeu denúncias de ciganos por crimes contra a religião. Exemplo:
Violante Fernandes, viúva de um ferreiro cigano, também deportado de Portugal, agastada com as chuvas, dissera que “Deus mijava sobre ela que a desejava afogar”. Tareja Roiz ouvira da cigana Argelina que a cigana Maria Fernandes dissera: “que pesava de Deus porque chovia tanto”. In Primeira Visitação, Denunciações da Bahia, pp. 385-386. Tareja Roiz negava a existência do dia do juízo. Idem, p. 192. Apud Laura de Mello e Souza: O diabo e a Terra de Santa Cruz.
Os ciganos ainda hoje seguem sua sina. Espalhados em todo Brasil, uns ricos, outros pobres, extremamente pobres, fazem parte da nossa história, como nós outros fazemos. Temos de encontrar um modo de coexistência pacífica, afinal consideremos que todos nós temos alma um tanto cigana. Quem nunca sonhou em sair pelo mundo afora? E podemos ter, entre nossos antepassados, alguns de sangue boêmio. Aí estão Castro Alves, Juscelino Kubitschek, Cecília Meireles (talvez). Leiamos este trecho da poetisa, pleno de sabor e essência do espírito cigano:
Epigrama no 7
A tua raça de aventura,
quis ter a terra, o céu, o mar.
Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar...
A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.
A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.
(Viagem)
Lemos em d’Oliveira China, apud Mello Morais Filho, que descendem de João Costa Ramos os conhecidos Costas, notáveis cantadores e tocadores de viola, francos e generosos; o velho tronco Luiz Rabelo de Aragão perpetuou-se nos Rabelos, poetas e literatos, entrelaçou-se com a família Cabral, que nos tem dado oradores parlamentares, oficiais do exército, homens conceituados no magistério, no fórum e na tribuna sagrada (sacerdotes). A família dos Helenas. Os Cantanhede, homens vencedores em vários ramos de atividade (engenheiros, médicos, professores, administradores).
Dizem que o poeta lagartixa, Laurindo Rabelo (1816-1864) era de origem cigana e é dele (apesar de vozes discordantes) este soneto, onde faz belíssimo jogo de palavras envolvendo o tempo e conta:
Deus pede estrita conta do meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo,
Dado me foi bem tempo, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.
Ó vós que tendes tempo, sem ter conta,
Não gasteis esse tempo em passatempo,
Cuidai enquanto é tempo, em fazer conta.
Pois, aqueles que sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão como eu, o não ter tempo.
Melo Morais Filho (op. cit.) coletou mais de 500 trovas de autoria dos ciganos. Ele as dividiu em três tipos: as elegíacas (kachardins), mais propriamente tristes e que primam pelo subjetivismo e pela sentença; líricas (kambulins) e as funerárias (merendins). Vejamos exemplo de cada uma delas, na ordem citada:
Até nas flores se encontra
A diferença na sorte!
Umas enfeitam a vida,
Outras enfeitam a morte!
De contínuo ver frustrar
Tanta crença e esperança,
Té de um Deus a fé se perde,
Quem espera e não alcança.
Como as aves vagueiam
No seio da noite escura,
Assim serão meus suspiros
Sobre a tua sepultura.
Ciganos em seu eterno deambular, absorveram palavras de outros povos e também os enriqueceram com o linguajar romani. Em nosso idioma, dizem que são mais de cem verbetes (v. caló, p. 273, dic. Aurélio, Séc. XXI). Localizamos muitos, apresentaremos alguns na seqüência, todos retirados do Dicionário Houaiss, exceto se indicadas outras fontes.
baldroca — s. f. 1. Uso: informal. Engano fraudulento; trapaça, logro. 2 Regionalismo: Bahia (São Francisco). transferência mútua e simultânea de coisas entre seus respectivos donos; troca, escambo.
banza — s. f. 1. Derivação: por extensão de sentido. Regionalismo: Portugal. Uso: informal. guitarra portuguesa. 2. (1868-1911) Regionalismo: Brasil. viola ou violão
calão — Do espanhol caló. cigano caló, ‘cigano’. (Dic. Aurélio)
calim — s. f. Mulher de calom ou cigano. Obs.: cf. calom
caló. — s. m. Gloss. Língua falada pelos ciganos na Espanha, em Portugal, e no Brasil; calão, cigano, gitano, lusitano-romani, romani-ibérico, romenho.[É diferente de qualquer outro romani, uma vez que conta com um vocabulário ativo de cerca de 100 palavras do romani, com estrutura do português e do espanhol.] (dic. Aurélio)
calom — s. m. Regionalismo: Brasil, m.q. cigano ('indivíduo de um povo itinerante').
endrômina — s. f. ardil, impostura, artimanha; andrômina.
gade — s. f. 1 Rubrica: etnografia. Ritual de origem oriental praticado nos casamentos dos ciganos, em que uma sacerdotisa rompe o hímen da noiva com o dedo e limpa o sangue numa camisa que o noivo mostra aos convidados. 2 Rubrica: vestuário. Regionalismo: Brasil. Uso: informal, m.q. camisa 'peça de roupa'.
gajão — s. m. 1 indivíduo muito esperto 2 Regionalismo: Brasil. Forma de tratamento respeitosa (equivalente a 'senhor') dada pelos ciganos a pessoas estranhas à sua raça.
gamar — verbo transitivo indireto e intransitivo. Regionalismo: Brasil. Uso: informal, Ficar encantado, apaixonar-se, vidrar. Ex.:
marar — verbo. Uso: informal, transitivo direto. Matar; esfaquear.
Para Cândido de Figueiredo, orig. indiana, através de um rad. már-, conforme explicitado por Delgado; segundo este autor, o vocábulo prov. entrou na língua portuguesa através dos t. do hind. incorporados ao vocabulário dos ciganos.
pechincha — s. f.1 interesse ou vantagem material considerável; 2 lucro que não se espera e/ou que não se merece; 3 qualquer coisa cujo preço é muito baixo; barganha.
pelego — s. m. 1 Regionalismo: Brasil. A pele do carneiro com a lã; 2 Regionalismo: Brasil. Essa pele colocada sobre os arreios para tornar o assento do cavaleiro mais confortável. 3 Regionalismo: Brasil. Tapete rústico feito dessa pele.
pileque — s. m. Regionalismo: Brasil. Estado de bêbedo; bebedeira.
piranha – s. f. Dança, música. Regionalismo: Goiás. Dança de roda infantil em que um participante, colocado no meio de um grupo, deve fazer o que os outros mandarem
pirar — verbo. Uso: informal, intransitivo. 1 Retirar-se discretamente, cair fora, dar o pira. Ex.: pirou rápido sem falar com ninguém. Intransitivo e pronominal. 2 Uso: informal. Empreender fuga; evadir(-se), safar(-se). Ex.: posto na cadeia, pirou (-se) no dia seguinte. Intransitivo. 3 Regionalismo: Brasil. Tornar(-se) louco ou meio louco; amalucar(-se). Ex.: começou a falar sozinho, depois pirou de vez.
Pirar tem origem duvidosa, segundo Nascentes, do cigano; JM registra, com dúvida, “do cigano pirar 'fugir'?”; AGC considera incerta a origem do vocábulo.
punguista — adjetivo e substantivo de dois gêneros. Uso: linguagem de delinqüentes.1 que ou o que pungueia; batedor de carteiras, carteirista, punga, trombadinha.
rangar — verbo. Regionalismo: Brasil. Uso: informal, transitivo direto e intransitivo. Tomar (algo) por alimento; alimentar-se, comer.
rango — s. m. Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Alimento servido numa refeição; comida; refeição.
rom — s. m. Designativo de cigano originário dos Bálcãs, entre os próprios ciganos.
romani — adjetivo e substantivo masculino. Relativo a ou um complexo de dialetos falados por ciganos de diferentes países e que genealogicamente pertencem à família indo-européia, ramo indo-irânico, sub-ramo indo-árico, grupo sânscrito; cigano. [Do cigano romani, cigano.] s. m. Gloss. 1.Língua indo-ariana falada pelos ciganos e que se subdivide em dialetos espalhados por diversos países do mundo. 2.Ver. caló. 3. vocábulo do romani. [Sin. ger.: cigano; tzigano. F. plural: romani] (Dic. Aurélio).
romenho — s. m. Rubrica: lingüística. Relativo a ou língua falada pelos ciganos de Portugal, e que não é mais que o espanhol influenciado pelo português e com aproximadamente 100 palavras do romani.
O professor Ático Vilas-Boas da Mota nos ensina (in Revista Planalto, Lingüística no 1, 2002, pp. 108-110) que as palavras gamar, rangar (rango), piranha (mulher vampiresca, dança de roda) são de origem cigana. Além disso introduziram em nosso léxico palavras que são empréstimos dos países por onde passaram: pileque (do romeno) e punguista (do romeno). E Manuel Viotti em Novo Dicionário da gíria brasileira, 3a ed. Livraria Tupã Editora, nos informa que os ciganos forneceram no conjunto, mais de 700 verbetes. (Nota de rodapé do Dicionário, citado).
É curioso (porque não é índole dos ciganos) mas é importante lembrar que em 1944, em plena guerra mundial, os ciganos de São Paulo levaram ao governo brasileiro sua solidariedade em face da agressão dos nazistas, ofereceram-se como voluntários em defesa da pátria, como também entregaram donativos em dinheiro e jóias de ouro, para auxiliar no custeio da defesa.
Como encerrar este trabalho? Dizendo que o Brasil não é a soma de portugueses, índios e negros. É muito mais! Existem milhares, quiçá milhões de outros indivíduos de outras etnias e entre elas sobressai a etnia cigana, ainda que seja invisível. Parafraseando o mestre Alexandre José de Mello Morais Filho[46]: Os ciganos foram a argamassa que uniu a raça brasileira. E no mesmo sentido preleciona João Dornas Filho (1902-1963), em Os ciganos em Minas Gerais. RIH-MG,V. III, ano 1948, p. 145: “Como se vê, não é tão pequena como se supõe a influência dos ciganos na vida brasileira. Não só na formação étnica e moral, mas também na formação política, eles têm concorrido para o nosso aprimoramento social”.
E SUA INFLUÊNCIA NA MÚSICA E NA DANÇA POPULAR
(Com respigos de folclore, poesia e glotologia)
Asséde Paiva Oliveira[1]
Rev. Acir Reis
Resumo:
Palavras-chave: Ciganos, escravos, folclore.
Referimo-nos aos ciganos no Brasil e esclarecemos várias questões como: De onde vieram? Quando vieram? Por que vieram? Onde foram estabelecidos? O quê comerciavam? Sua influência na expansão territorial, política, música, poesia e na dança. Onde entram no folclore. Focalizamos principalmente sua participação no comércio de escravos. Debret (artista francês que aqui esteve) não viu; se viu, omitiu que portugueses e brasileiros comandavam o tráfico negreiro. E Debret se tornou fonte de referência para os ciganólogos pósteros, que não se deram conta de que os ciganos, excluídos ontem e hoje, jamais poderiam ser grandes ou pequenos traficantes de escravos.
Abstract
Keywords: Gypsies, slaves, folklore.

This work is about the presence of gypsies in Brazil and explains several questions as: where did they come from? When did they come? Why did they come? Where were they established? What kind of businesses did they were involved? Their influence in the our territorial expansion; politics, music, poetry and in the dance. Their contributions to the folklore. We focused mainly on their involvement in the slaves trade. Debret (the French artist) omitted that Portuguese and Brazilians commanded the slave traffic. And Debret became a reference source for the gypsies researchers, that didn't perceived that the gypsies, excluded yesterday and today, couldn’t ever be a big or a small slave dealer.
DEFINIÇÃO
Cigano. [do grego bizantino athinganos, pelo fr. tzigane ou tsigane.] S. m. 1. Indivíduo de um povo nômade, provavelmente originário da Índia e emigrado em grande parte para a Europa Central, de onde se disseminou, povo esse que tem um código ético próprio e se dedica à música, vive de artesanato, de ler a sorte, barganhar cavalos, etc. [Designam-se a si próprios rom, quando originários dos Balcãs, e manuche, quando da Europa Central.] Sin.: boêmio, gitano, calom. (Novo Dicionário Aurélio, Século XXI, p. 470)
Escrever sobre ciganos é tarefa árdua, alguns pensarão que é tema perfunctório, mas sabendo-se que é uma etnia com 300 a 800 mil indivíduos no Brasil, mudamos de opinião. Vale o esforço. Pesquisei, analisei, busquei, manuseei tudo relacionado com cigano. Agora, submeto o resultado da busca à apreciação dos doutos leitores e leitoras...
E louvando em um dos maiores ciganólogos brasileiros: “...o cruzamento com as três raças existentes efetuou-se, sendo o cigano a solda que uniu as três peças de fundição da mestiçagem atual do Brasil”. (Mello Morais Filho, Os ciganos no Brasil, p. 27)
E vou afirmar agora e em outras páginas deste trabalho que cigano nunca foi escravista e que levou a culpa sem reclamar.
Deus! Ó Deus! Onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’ escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te lancei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...
Que tem este poema e os ciganos em comum? Há estreita relação. Primeiramente, o poema é de Castro Alves[2] (1847-1871), em Vozes d’África. Inicio por ele porque diz muito. É uma metáfora que lembra Jesus pregado na cruz, quando, segundo o Evangelho, em desespero e dor teria perguntado: “Pai, por que me abandonaste?” Castro Alves, com sua vibrante poesia, fez um apelo à sensibilidade dos homens para que cessassem o comércio hediondo dos escravos.
Castro Alves tem descendência cigana. Está em Gilberto Freyre[3] (1900-1987) que, aliás, só fez em sua obra esta citação favorável aos ciganos. O grande sociólogo, autor de Casa-grande e senzala; Sobrados e mocambos e muitos outros livros sócio-antropológicos, é bastante cáustico com os ciganos.
Ainda Castro Alves, que em seu grande poema: Navio negreiro, nos dá uma pista quem eram os comandantes dos tumbeiros (navios que traziam escravos para o Brasil). Em certo ponto do seu poema, ele canta: “Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança...” Então a resposta a uma dúvida está aí: Os navios negreiros, tumbeiros eram brasileiros, portugueses e outros, sob a bandeira do Brasil. Incrível! Há quem diga que os ciganos eram donos desses tumbeiros. Gastão Cruls, por exemplo. Outros também afirmaram assim e todos erraram. Alberto da Costa e Silva[4], em seu livro: Um rio chamado Atlântico, registra, no capítulo Na margem de cá, p. 158, colaboração de Eduardo Portela, o seguinte: “Os negreiros tinham a maioria de suas tripulações formadas por marinheiros negros...”
Corroborando esta afirmação, recentemente foi lançado livro com título De costa a costa[5], onde se estuda em minúcias as tripulações do tráfico negreiro, na parte II, pp. 159-184. É só consultá-lo e convencer-se de que ciganos apenas foram bodes expiatórios no caso do tráfico de negros.
Em História dos ciganos no Brasil, Rodrigo Corrêa Teixeira[6] (inédito) nos informa que, para o Brasil, vieram ciganos ibéricos e não-ibéricos, ou seja, calom e rom respectivamente. O rom[7] que aqui chegou mais cedo teria sido Jan Nepomuscky Kubitschek, que trabalhou como marceneiro no Serro e em Diamantina. Casou-se com brasileira. Em seu matrimônio com Teresa Maria de Jesus Aguilar, teve três filhos. O primeiro foi João Nepomuceno Kubitschek, que viria a ser um destacado político; o segundo Carlos Kubitschek e o terceiro foi Augusto Elias Kubitschek, um comerciante com escassos recursos, que viveu toda sua existência em Diamantina; casado com Maria Joaquina Coelho. Uma de suas filhas: Júlia Kubitschek, casou-se com João Cesar de Oliveira e foram os pais de Juscelino Kubitschek[8] (1902-1976), que depois se tornou presidente do Brasil. A árvore genealógica de JK, até o bisavô, está no site diamantinanet.com.br/juscelino/links/gene_materna.html
O definitivo depoimento sobre a origem cigana de Juscelino foi feito pelo jornalista João Pinheiro Neto (ex-Ministro) às entrevistadoras: Aspásia Alcântara Camargo, Helena Maria Bousquet Bomeny e Maria Luísa d’Almeida Heilborn, para o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de onde extraí este texto ipsis litteris:
Como o senhor definiria Israel Pinheiro? [Pergunta das entrevistadoras].
“O Israel basicamente é um grande capitão de obras, um grande construtor, um grande realizador, também sem nenhuma preocupação de ordem ideológica. Um pragmático parecido com o Juscelino em muitos pontos, menos na simpatia pessoal. Se bem que quando o Israel queria também era simpático; mas o Juscelino era sempre simpático. O Juscelino era um cigano. Quando fui à Tchecoeslováquia perguntei se havia Kubitschek lá. Aliás, a D. Sara já tinha estado lá e visto no catálogo que há centenas de Kubitschek. Ele era da Boêmia, daí gostar de violão, de música, de dança, de mulher.”
Possivelmente, Cecília Meireles[9] (1901-1964), grande poetisa, tinha em suas veias sangue cigano. Vários artistas, citando-se Carequinha, Wagner Tiso, Guerra Peixe (grande violinista) entre muitos, descendem de ciganos.
Há provas contundentes de que portugueses comandavam o tráfico negreiro. Na Biblioteca Nacional, encontram-se dois documentos definitivos: No primeiro, 99D,17,9, em Obras raras, negociantes lusos reclamam perdas e danos. Tem este título: “Das Perdas e Damnos experimentados pelos Negociantes Portugueses, em consequencia dos apresamentos e feitos pelas forças Britannicas nos Navios empregados no resgate de escravos até trinta e hum do mez de Maio de 1814.” [Grafia do original]. Segue relação de 35 navios. O outro documento é uma petição de negociantes de escravos contra o estabelecimento da quarentena de navios negreiros. Começa assim: “Dizem os negociantes desta Praça, sócios e consignatários dos de África, que...” [FBN-26,4,112, Seção Manuscritos]. Subscrevem quarenta e seis traficantes, todos portugueses.
Não há provas definitivas de que os ciganos participaram das “Entradas e Bandeiras” que tanto alargaram o território nacional. Mas é possível que sim, pela maneira de ser do cigano: sempre mudando, viajando... O que condiz com o sistema das bandeiras. Há esta pista em Dornas Filho[10] (1902-1962) “Moradores do termo de Mariana e dos distritos de Tapera, Turvo e Calambao representaram contra a ‘bandeira’ do capitão José Leme da Silva e seus irmãos, acusando-os de acoitadores de ciganos”. E também a magnífica frase do prof. Maffesoli[11], que a seguir transcrevemos: “Há belas páginas de Gilberto Freyre em Casa-grande e senzala, em que fala de nômades que chegam ao Brasil, são vagabundos, condenados pela justiça etc. e ao mesmo tempo é graças a essa espécie de barbárie que o Brasil pôde existir”.
Os ciganos vieram para o Brasil oficialmente em 1574, quando um certo João de Torres, tendo sido condenado às galés, fez petição ao rei dom Sebastião para que comutasse sua pena para degredo perpétuo no Brasil, visto que estava doente e não agüentaria as lides do mar. Entretanto, oficiosamente já estavam aqui desde 1568, quando para cá veio João Giciano, mulher e quatorze filhos[12].
Existiam disposições régias proibindo entrada de ciganos em Portugal e que aqueles que lá estavam, se intentassem manter seus modos de vida e sua língua, deviam ser expulsos para o Maranhão. Em 27 de agosto de 1865, Ordenações do Reino diz o seguinte: “Fica comutado aos ciganos o degredo da África para o Maranhão.” Em 15 de julho de 1686, Dom Pedro II, rei de Portugal, determinou que os ciganos vindos de Castela fossem exterminados e que filhos e netos (de ciganos) portugueses, tivessem domicílio certo ou enviados para o Maranhão.
Dom João[13] V (1689-1750), rei de Portugal, decretou a expulsão das mulheres ciganas para o Brasil. E no mesmo tom, anos a fio, promulgaram-se dezenas de leis, decretos, alvarás exilando ciganos para o Brasil. E eles aportavam no Maranhão, Recife, Bahia e Rio de Janeiro, onde estavam os núcleos coloniais mais importantes, mais desenvolvidos. O mesmo rei, Dom João V, proibiu-os de falarem o romani (língua dos ciganos). Os ciganos do Rio de Janeiro, foram para o sul e de lá para Uruguai e Argentina. Mas também vieram da Argentina para nossas plagas. O testemunho que se segue é valioso:
Note-se que os ciganos (não os do Rio) usaram as grandes estradas dos tropeiros e justamente entraram também no Brasil, pelo Rio Grande do Sul. Já fiz notar que suas barracas ao contrário das dos tropeiros, tinham os fundos e não a frente para o caminho, eram grupos étnicos fechados, e ao contrário dos viandantes brasileiros, tão hospitaleiros e nada amigos de lograr, a não ser na barganha de animais: Barganha, um ganha e outro arreganha[14].
Na guerra dos Farrapos, os legalistas apelidaram os revolucionários pejorativamente de maragatos, insinuando a identidade estrangeira dos revoltosos federalistas, que vinham do exílio no Uruguai, e entravam pelo Rio Grande do Sul à frente de um exército. Isso porque no Uruguai o termo nominava os descendentes de imigrantes espanhóis oriundos da Maragateria de León, onde eram tidos como ciganos.
Especulando um pouco, as mais importantes contribuições dos ciganos para nosso país foram negligenciadas pelos historiadores, qual seja, de co-participantes da integração e da expansão do território nacional. De norte a sul, de leste a oeste, em todos os lugares, lá estavam eles, viajando, negociando animais, arreios, consertando engenhos, alambiques, soldando tachos, levando notícias, dançando, executando atividades circenses, trocando objetos vários e lendo a buena-dicha. Mas como eram? Como viviam? Onde ficavam? Na verdade eram e são como hoje: alegres, prudentes, desconfiados, arredios e excelentes negociantes. Hoje não vendem tantos cavalos; entretanto, quando saíram de Portugal, nos primeiros anos após o descobrimento, à cata de aventuras, aportando em terras de Pernambuco, traziam grande número de eqüinos de raça árabe. Infiltrando esses animais pelo Piauí e por todo o norte brasileiro, formaram as bases ancestrais dos nossos cavalos nordestinos, que apresentam todas as características do sangue árabe. Agora, os ciganos vendem ferro velho, rádios, aparelhos de som, carros usados, sucatas e... lêem a sorte. Como sempre, não têm boa vida aqui, nunca tiveram. Jamais foram recebidos com festas.
Gustavo Barroso[15] (1888-1959), em seu texto A raça, admite que os ciganos tiveram grande influência no povoamento do Ceará. Está em seu livro Aquém da Atlântida, p. 268: Da,í passaram para a América e para o Brasi,l especialmente para o Ceará, onde várias de suas tribos forma despejadas por ordens régias ao tempo do grande Marquês de Pombal. E nesse fato muitos querem ver a fonte do espírito errante, do caráter nômade, da alma andeja dos filhos da terra de Sol. Este tema até hoje permanece obscuro, merece ser aprofundado. O governo de Pernambuco não só os expulsou para o Ceará, como também os encarcerou na Ilha de Fernando de Noronha (1739). Isto é fato, pois há uma belíssima poesia, a Cigana do cajueiro, coligida por F. A. Pereira da Costa[16] (1851-1923), adiante transcrita.
No Piauí, ocorreu um massacre de ciganos em 1912. Foram também expulsos para Sergipe D’el Rei. E nas Alagoas, uma curiosa proposição mandava que eles fossem evacuados/exterminados pelos juizes de paz.
Portaria de 1718 mandava prender todo cigano que andasse pela Bahia, com ou sem licença d

Com relação a Minas Gerais, terra proibida a estrangeiros, e os ciganos eram assim considerados, eles enfrentaram a situação e, naturalmente, como todos os homens e mulheres da época, procuraram enriquecer-se com ouro e diamantes, quer garimpando, quer negociando com garimpeiros. Existem bons livros sobre ciganos em Minas Gerais, entre eles exalta-se o de João Dornas Filho: Os ciganos em Minas Gerais. Mas quem o lê verifica a via-crúcis dos ciganos em MG. Não tiveram sossego, jamais. Perseguidos sempre, andavam de periferia em periferia das cidades, acampavam nos inóspitos lugares e negociavam ou montavam seus teatros mambembes e liam a buena-dicha. Eram detestados em Minas desde 1761, mas claro, estavam lá antes disso. Dornas Filho é quem nos indica que os ciganos procediam de todos os lados: de Belém do Pará, Maranhão, Ceará, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro, Pernambuco/Recife, confirmando a tese de que estavam em todo território brasileiro, desde cedo, e ajudando a ampliá-lo. Andando sem parar pelas estradas que não passavam de trilhas, foram conhecidos também como turcos, gringos e mascates. E quanta culpa levaram por causa dessa confusão étnica e profissional!
Não deixaremos de registrar uma carta de São Sebastião, aos 29 de julho de 1734, enviada pelo jesuíta italiano Domenico Capacci, eminente astrônomo e cartógrafo, dirigida a Martinho de Mendonça Pina e de Proença, governador da capitania de Minas Gerais que começava assim: “Um cigano a outro cigano, muita saúde e muita vida[17]”. Parece que o jesuíta era mesmo cigano, quanto ao governador, dúvidas temos, pois foi um intransigente perseguidor de ciganos, com atestam diversas cartas trocadas entre ele e Gomes Freire de Andrade, Capitão-general e governador da capitania do Rio de Janeiro, que teve sob suas ordens a capitania de Minas Gerais a partir de 25 de março de 1735[18].
Ciganos que aportaram no Rio de Janeiro foram expelidos para o Valongo[19] em 1771, local pantanoso e mais infecto da cidade. Leia Vivaldo Coaracy[20]:
No ângulo cujos lados as duas propriedades formavam ficava uma área que parece ninguém pretendera por inaproveitável. Constituída de brejos e alagadiços que as menores chuvas inundavam, tinha fama de pestilenta pelos miasmas que dela exalavam. Os pauis que formavam tornavam-na imprópria tanto para a lavoura como para que nela se erigissem construções permanentes. Nesse pantanal abandonado e desprezado, onde ninguém os viria incomodar, ergueram os seus míseros e toscos casebres de moradia os ciganos.
Quando a real história do Valongo for escrita, vão reconhecer o pioneirismo dos ciganos, pois foram eles que desbravaram aqueles pântanos onde hoje se situam os bairros Saúde, Gamboa e rua do Livramento. Mais tarde o comércio de escravos foi desviado da Rua Direita, hoje Primeiro de Março, para o Valongo e, então, os ciganos passaram a ser culpados pelo escravismo. Depois, com o saneamento da cidade, foram expulsos do Valongo, dispersaram-se, alguns se tornaram andadores do rei ou meirinhos honestíssimos, como nos diz Mello Morais Filho[21] (1844-1919). Inclusive participaram da polêmica contra o Estado, quando da eliminação do bairro de Catumbi, quando tiveram que conciliar duas posições antagônicas: a de meirinhos e a de residentes.
Os ciganos no Rio de Janeiro foram mais que meirinhos ou negociantes ou leitores de buena-dicha, também influíram na música e na dança popular. Faz parte do nosso imaginário e podemos afirmar que, quando falamos 'cigano', pensamos música.
Leiam no ótimo artigo de Ary Vasconcelos[22], na revista Piracema n. 1, ano 1, p. 107, o seguinte:
... e posso hoje, em primeira mão para Piracema [revista], oferecer dados novos que modificam e ampliam a história do samba, dando aos ciganos uma importância fundamental, até hoje totalmente desconhecida, e reciclando toda a geografia do gênero. Segundo informações de Pixinguinha e João da Baiana, cinco eram os principais redutos do samba na segunda década do século. [Interessa apenas o n. 1, para o caso em tela: A casa da tia Ciata].[23] Pelo Telefone nasceu na casa da tia Ciata. [...]. É que Pixinguinha e João da Baiana me revelaram [ao Ary Vasconcelos] que havia um grupo de compositores, cantores e músicos ciganos que cultivavam o samba com grande maestria e que trouxeram também uma contribuição importante, talvez decisiva, ao gênero. Eles mencionaram um deles ¾ o Saudade ¾ excelente cantor de sambas e que também freqüentava a casa da tia Ciata.
Em continuidade, colhi em Vozes[24], no excelente artigo do ciganólogo Ático Vilas-Boas da Mota[25], pp. 527-30, sob o título Ciganos: folclore e animais.
A presença dos ciganos no folclore brasileiro ainda não foi totalmente dimensionada nem estudada de maneira sistemática, isto é, o que dela se sabe só nos chega de maneira esparsa ou fragmentária, valendo ressaltar que tal não significa inexpressividade. [...] Acredito, no entanto, que a influência cigana em nosso folclore, é muito maior do que à primeira vista se poderia imaginar.
Na internet, sabendo-se pesquisar e separar o joio do trigo, ficamos ciente de que alguns dos maiores nomes da Mangueira foram ciganos, estavam de passagem por lá, que é o caso do imerecidamente esquecido Lauro dos Santos. Ver: www.academiadosamba.com
Quem diria?! Tem cigano no samba, que aliás é o título do artigo de Ary Vasconcelos na revista Piracema.
A internet é prodigiosa, torrencial, sem dúvida! No site
Em trabalho recente e erudito, Samuel Araújo[26] e Antônio Guerreiro[27] apresentaram e defenderam a tese de que há muita contribuição cigana na música popular brasileira, citando Rugendas, in Viagem pitoresca através do Brasil, que o lundu era, na coreografia, no sapateado e na instrumentação, carregado de nuanças das danças ciganas. Que interessante!
Encontra-se em As mulheres de mantilha, p.110, de Joaquim Manoel de Macedo, informação de que, bem ou mal fundamentado, o lundu seria “imitação da zarzuela espanhola”, o que nos leva de volta aos ciganos e seus trejeitos.
Também está na internet em inúmeros sites:
Uma das brincadeiras mais estimadas no carnaval do Recife é a La ursa, cujas origens encontram-se nos ciganos da Europa que percorriam a cidade com seus animais, presos numa corrente, dançando, de porta em porta, em troca de algumas moedas, ao som da ordem: dança la ursa.” [28]
Mostradores de ursos também eram encontrados no interior de Minas Gerais, segundo Dornas Filho.
Se observarem nossas baianas e suas saias rodadas, e se compararem com usos dos locais de origem dos escravos da África, ficarão surpresos em verificarem que daquelas plagas não vieram os costumes de saias amplas, rodadas e longas, tudo é originado das nossas ciganas, aqui no Brasil. Nem hoje, nem ontem, povos africanos contribuíram com tais ou quais tipos de saias. E vamos pedir socorro novamente ao prof. Ático Vilas Boas da Mota[29]:
...o traje cigano tem servido, ao longo dos tempos modernos brasileiros, de sugestão para fantasias de foliões, além de motivos para carros alegóricos durante nossos carnavais, a exemplo de que vem acontecendo com o traje da ‘baiana’, estilizado pela famosa cantora Carmem Miranda (1909-1955). Evidentemente, estes últimos exemplos se enquadram no metafolclore ou nas denominadas manifestações parafolclóricas.
No Folclore pernambucano, in Anais Pernambucanos, de Francisco Augusto Pereira da Costa, encontramos referências a ciganos nos chamados pastoris (pequenas representações dramáticas com dança e canto, realizadas diante de presépio entre o dia de Natal e de Reis, inspirados nos autos da Natividade e nos vilancicos portugueses), onde algumas ciganas fazem parte do auto, declamando poeticamente a sorte do menino Jesus. Transcreve-se integralmente porque é muito comovente:
Somos ciganas do Egito
Que viemos de Belém,
Adorar a um Deus menino
Nascido p’ra nosso bem...
Atenção peço, senhores,
Para esta breve leitura,
E uma atenção piedosa
A toda e qualquer criatura.
Deste menino formoso
Vindo de origem divina,
Em suas mãos pequeninas
Eu vou ler a sua sina.
Dai-me licença senhora,
Guiai o meu pensamento,
Para dizer o que sinto
Para ler com acento.
Eterno rei desses céus,
Que dando ao mundo alegria,
Por prodígios só nasceu
Da Santa Virgem Maria.
Redentor da humanidade
Nascido p’ra nosso guia,
Mudou o céu em presépio
Transformou a noite em dia.
Se a boa dita e a nossa,
Quereis meu bem, que vos diga,
É a mesma que bem sabeis,
Mas permitais que prossiga.
Dai-me soberano infante
Dai-me esta linda mãozinha,
E vereis que uma cigana
A vossa sina advinha.
Primeiramente a meus olhos
Vejo com suma alegria,
Que sois com um grande extremo
Querido de uma Maria.
E prevenida ela um dia
Pelo supremo juiz,
Fugirá cedo convosco
P’ra o mais remoto país.
E decorridos doze anos
De tão doce companhia
Terás milhares de penas
Sem lhe escapar um só dia.
Enquanto andardes no mundo
Sereis sempre perseguido,
Mas, pelos prodígios divinos
Jamais vós sereis vencido.
Se um amigo no rosto
Certo dia vos beijar,
Às mãos cruéis da justiça,
Ele vos há de entregar.
Outro vos há de negar,
Em perguntas à porfia,
Respondendo que não sabe
Quem sois vós, minha alegria.
Não tereis vida mui larga,
Pois, com as mãos estendidas
Atirarão numa cruz
Uns ingratos homicidas.
E depois de redimirdes
A humanidade querida
Vencereis a própria morte,
Lograreis a eterna vida.
Se porque digo a verdade
Mereço eu uma esmolinha,
Dai-me só a vossa graça
E a todos desta lapinha.
Também conhecemos a linda fábula do folclore da Ilha de Fernando de Noronha, que diz respeito a uma cigana e se intitula O cajueiro da cigana. In Francisco Augusto Pereira da Costa, 1887, FBN II-418,3,26.
Conservara as tradições
que esbelta e linda cigana,
tinha aqui, pobre cabana
nestas ermas solidões;
certo, a buena-dicha lia,
porém disto não vivia.
Mas certos amores vendeu...
era bela o mais quem sabe?
Dizer a mim não me cabe,
depois dizem que morreu,
e por memória deixou
esta árvore que plantou.
Desde então, nesta paragem,
junto d’este cajueiro
apareceu ao caminheiro
um eqüestre personagem;
fronte altiva e marcial,
vestido de general.
Outras vezes, diz a gente
que um vulto — rara beleza,
pelas formas — com certeza,
mulher, — alma padecente
se vê perdida na estrada
como que vai de jornada.
Não se sabe o que julgar
dessa estranha aparição:
mas, afirmam que, um caixão
se se cavam há de achar
que é férreo cofre, um tesouro,
que contém da Holanda o ouro.
São antigos cabedais
que ajuntaram os holandeses;
herança dos portugueses,
amontoados na paz,
e, depois, de imiga guerra,
escondidas sob a terra.
Morreram... talvez — quem viu?
e essas imensas riquezas,
n’estas imotas devesas,
pela terra se sumiu:
Hoje, buscam uma oração,
talvez, — por d’ouro um caixão.
Quem sabe? mas, o que é certo,
verdade que muitos contam,
e vários fatos apontam
É que, d’esta árvore perto
uma noite — de passagem,
vira um preso uma visagem.
Meia-noite, mais ou menos
ouviu confuso tropel:
Olha, e lá avista um corcel
galopar nestes terrenos;
após outros mais atrás,
três ao todo, não eram mais.
E a cavalgada se avança,
pára junto do cajueiro,
num montava um brigadeiro,
galopa n’outro ordenança
n’outro alfim fradalhão
em guisa de capelão.
Trajava o velho general
gibão e armado chapéu;
o capelão — solidéu,
e o seu burel monacal:
E que por ser d’ordens passa
cimeira, lança e couraça.
O general se aproxima,
e a mão levando da espada
gesto frio — vista irada,
medir-lhe de baixo acima,
depois dá-lhe uma moeda,
e da vereda se arreda.
Assombrado quis correr,
no chão súbito caiu...
quando, após, o olhar abriu,
começava a amanhecer:
Todo o campo era deserto
mas estava de arv’re perto.
Depois, mais não viu tornar;
ou a outros revelavam
a causa porque penaram
e foram, alfim, descansar:
pois, após isto que aponta.
quarenta invernos já conta.
Contudo, inda há quem quer
que, caminho do Sueste*
arrastando uma’alma veste,
passa uma noite uma mulher.
Mais, não afirmo nem nego,
e a descrição isto entrego.
*É assim denominado o mais pitoresco e agradável sítio da ilha, necessariamente pela posição que ocupa, relativamente aos pontos do compasso.
Na coleção de estudos brasileiros, série Marajoara, no 20, lemos no Baile do Meirinho estes trechos inclusos em Bailes pastoris na Bahia, coligidos por Mello Morais Filho, Manoel Quirino, J. N. de Almeida Prado e Carlos Ott:
Surge uma cigana mercando:
As chitas finas e boas,
cambraias, lenços também;
de mimo eu vou levando
para as portas de Belém.
Venderei algumas
a quem encontrar,
menos as mais finas
que são p’ra levar.
Meirinho —
Alto frente, venha cá;
por você já esperava;
pois sabia que seus furtos,
você por aqui mercava.
Cigana —
Ladra, era sua mãe,
por todos reconhecida.
Seu pai, o seu ofício,
era andar na mesma lida.
Assim mesmo, andava sempre,
com algibeiras furreca;
seu sustento era cachaça,
baleia, feijão, muqueca.
Na roça de pai Antônio
Laranja você comprou
há seis meses desta parte,
o dinheiro não levou.
E assim meu camarada,
vá-se daqui andando,
vá procura quem for tola,
vá furtando, vá roubando.
Meirinho —
Assim atrevidamente,
insultas a categoria?
Hei de mostrar o valor,
da minha supremacia.
Cigana —
Largue minha capona
Me solte, senhor João;
não comece a me enfezar,
olhe que lhe solto a mão.
Existem outras versões de pastoris, porém, julgo que as apresentadas são suficientes para convencer da influência dos ciganos nestas festas populares, ingênuas.
Um dos costumes dos ciganos é o de apresentar o recém-nascido à Lua para tê-la como madrinha do filho, atrair boa sorte, proteção e saúde. A criança é erguida acima da cabeça pela avó ou tia, que recita:
Lua, Lua, luar,
Toma teu andar,
Leva esta criança,
E me ajuda a criar,
Depois de criar
Torna a me dar!
O texto supra é encontrado em Luís Câmara Cascudo, (Dicionário do folclore brasileiro, 2a edição, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro, 1962, p. 431). Ele nos informa que é herança de Portugal, mas temos indícios de que foram os ciganos que nos legaram este costume. Os que vieram de Portugal nô-lo trouxeram.
Existe no Brasil Central uma cantiga de roda que é inspirada nos ciganos:
Chora, chora, chora piranha,
Torna a chorar, piranha
Põe a mão na cabeça, piranha
Põe a mão na cintura,piranha
Faz um requebradinho, piranha
Mais um sapateadinho, piranha
Diga adeus ao povo, piranha..
Pega na mão de todos, piranha!
Piranha foi à missa, piranha
A saia dela caiu, piranha
Estava perto dela, piranha
E ela não me viu, piranha.
(In Vila Boa, História e folclore, Regina Lacerda; in Câmara Cascudo, Dicionário do folclore brasileiro)
A tal piranha faz o que se lhe manda, chorando, pondo a mão na cabeça, etc. Por fim, conseguindo agarrar a mão de qualquer dos da roda, puxa-o para o meio do círculo, tomando-lhe o lugar. Assim se continua.
Na literatura de cordel, satã, cigano e nova-seita (membro da religião protestante) em geral, compõem a tríade do mal. Extraímos esta sextilha em Violeiros do norte, in Leonardo Motta[30]
Pode-se achar sogra boa,
Padre desinteressado,
Italiano Inocente,
Cigano sério e honrado,
O que nunca ninguém viu
Foi nova-seita corado.
Alexandre José de Mello Morais Filho, autor de Os ciganos no Brasil e Cancioneiro dos ciganos,[31] faz, nesta obra, pp. 38-41, extensa e minuciosa descrição de uma festa de ciganos (bródio/abieu), no beco do Bem-bom, Rio de Janeiro.. Ele chama a dança de fandango. Transcreve-se parte.
O anu tem quatro figurantes: duas moças e dois homens.
A viola dá afinação mais alta, os cantadores variam as quadras, os velhos animam os pares com outros ditos:
— Bota pra baixo, menino! tudo por baixo!
Aos clamores destes recresce o entusiasmo, os violeiros tocam mais ativos e o coro repete o estribilho popular:
O anu é pass’o preto
Só faz casa no capão...
— Mistô![32] mistô! bradam os idosos ciganos, esfregando as mãos, batendo palmas estrepitosas.
Os figurantes requebram duas vezes, param, contemplam-se; as castanholas troam, as violas plangem acompanhando as trovas, as moças dançam juntas e depois os seus vis-a-vis.
Quando estes, isolados no salão, rompem no sapateado veloz, os instrumentos bambeiam no fandango, as cantigas são mais ternas, e, daqui, dali, d’acolá, sai um — bota pra baixo! — corta jaca! — bravo da letra! — que exprime o júbilo e a glorificação.
Apresenta-se esta dúvida: Foram, os ciganos, criadores desta dança ou somente a divulgaram?
O Dicionário musical de frei Pedro Sinzig[33] (1876-1952) ensina que: Fandango, palavra importada da Espanha, onde designa uma dança viva e voluptuosa, em compasso ¾ ou 6/8... A coreografia espanhola do fandango consta de sapateados e meneios; os dançarinos, evoluindo aos pares não enlaçados, mantêm os braços erguidos no alto da cabeça, tocando castanholas; o acompanhamento é feito por violões, e violinos ad. lib[34]. Com a palavra os musicólogos e pesquisadores de folclore.
Está bem provado no excelente livro de José Ramos Tinhorão[35]: Fado dança do Brasil cantar de Lisboa que houve simbiose entre o lundu e as umbigadas dos negros. Daí o fado junta não só o castanholado do fandango às umbigadas do lundu, mas também amplia o papel do canto, trocando estribilhos marcados por palavra pelo intermezzo[36] cantado...
E José de Alencar (1829-1897), em seu belo romance O Guarani, diz em um parágrafo, na 1a parte CENÁRIO: “Pouco distante, sobre uma cômoda, via-se uma dessas guitarras espanholas que os ciganos introduziram no Brasil quando expulsos de Portugal...” Note-se que a história se passa em 1604. Aditamos que o pandeiro, também, nos foi trazido da Espanha ou de Portugal pelos ciganos. A literatura[37], a iconografia[38] e a música são pródigas em exemplos de ciganos tocando este instrumento. Quanto às castanholas, é ponto pacífico: são próprias dos ciganos. Finalmente, os ciganos, pelas suas belas mulheres, são inspiração dos poetas e, em geral, dos compositores clássicos e populares: Carmen de Bizet, por exemplo. Entre romancistas, muitas vezes, os ciganos exercem papéis de vilões.
Encerramos aqui a problemática cultural dos ciganos na música e dança. Não estamos falando da dança peculiar dos nômades, isto poderia ser matéria para outro artigo.
Registra-se a valiosa contribuição dos ciganos para o circo no Brasil, tendo alguém dito que não se pode escrever a história do circo sem falar nos ciganos. A história ensina que em 1727, Dom Antônio de Guadalupe, bispo do Rio de Janeiro, com jurisdição nas Minas, pediu providências contra ciganos que realizavam “com grande aparato, comédias e óperas imorais”.
Viajantes, cientistas, aventureiros, comerciantes e militares estrangeiros que vieram ao Brasil, indiciaram os ciganos como comissários de escravos. E o português, o brasileiro e outras etnias? Até que se compreende, afinal aqueles senhores/viajantes precisavam da cooperação dos mandatários locais, para alcançarem seus objetivos. Governadores-gerais e vice-reis foram grandes traficantes. O rei de Portugal, vendo que era bom negócio, avocou o privilégio do tráfico. Mas os viajantes não viram isto, culparam os ciganos. Imaginem os ricaços da época, cheios de empáfia, poderosos, eles jamais tolerariam a verdade. Se os portos do Brasil foram abertos às nações amigas em 1808, é lógico que os “tumbeiros” foram, em esmagadora maioria, de propriedade de português ou brasileiro, cristãos-novos[39]
e/ou judeus. A corrente da escravidão é esta: Na África: ® pombeiros, tangosmanos / tangomaus ou lançados; ® No mar: os tumbeiros; ® No Brasil: comissários, comboieiros e tropeiros; e em todos os elos da corrente estavam os portugueses, brasileiros, cristãos-novos[40] e outros que não ciganos.
Um artista francês chegou ao Brasil em 1816, com a missão artística francesa e chamava-se Jean Baptiste Debret (1768-1848). Era um homem amargo, havia perdido o filho e separado da esposa. Ficou famoso por ter retratado o Brasil em 145 estampas (a maioria delas idealizadas) e por circunstanciadas descrições. Com respeito aos ciganos, ele fez três desenhos (pranchas): Mercado de escravos no Valongo; Interior de uma casa cigana e Cigano indo para a roça. Errou em todas, não retratou: idealizou/imaginou. Demonstrou ter mínimos/escassos conhecimentos sobre este povo. Foi, mais tarde, questionado ligeiramente por Bento da Silva Lisboa e J. D. Moncorvo de Ataíde, especialistas que analisaram suas aquarelas e concluíram que algumas eram verdadeiros deboches.
Felizmente, o excelente e conceituado jornalista Haroldo Ceravolo Sereza, em 6/1/2002, no caderno 2,de O Estado de São Paulo, levantou a questão: Por que Debret não teve coragem de mostrar que brasileiros e portugueses dominavam o comércio de escravos? E respondeu:
Debret coloca em duas pranchas ciganos no comando do negócio de escravos, o que é um pequeno delírio histórico — ou porque Debret não viu o óbvio, ou seja, que a elite brasileira comandava o negócio, ou porque o óbvio não podia ser visto.
Debret não iria condenar a elite e o patrão (conivente): príncipe regente; depois rei dom João VI. Assim, Debret precisava achar um responsável; pensou e criou um mito: a culpa é dos ciganos! Todos ou quase todos acreditaram nele, desde então. Tornou-se o magister dixit.
Debret, entre tantos erros, cometeu este: Na prancha do Cigano indo para a roça representou o cavalo em marcha que somente se vê em picadeiro e em quadros de elegia a Napoleão. É muito difícil treinar um cavalo para tal feito (leva-se mais ou menos sete anos para efetivar-se este treinamento) e não seria nessa marcha que iria para o campo. Ele não entendia mesmo de equitação.
Aquele que quiser se aprofundar no tema escravos/ciganos deverá ler meu manuscrito Brumas da história... RIHGB, citada, nota 1, do rodapé, onde contestamos todos aqueles que difamaram/vilipendiaram os ciganos. Concluímos, sem sombra de dúvida, que a participação dos ciganos, no comércio escravista, foi mínima, quase zero.
Em 1763, os ciganos participaram ativamente das festas em honra do primogênito de d. Maria I. Transcreve-se, na íntegra, o relato do livro Meios de transporte, no Rio de Janeiro, de Noronha Santos[41], p. 126. “Conforme a Epanáfora[42], citada por Varnhagem, constaram também estas festas de um desfile de carros das corporações de ofícios, carros e danças de ciganos que vieram com outras usanças até o século XIX...”
É histórico: grande número de ciganos acompanharam a comitiva de dom João VI em fuga para o Brasil, diante da invasão napoleônica a Portugal. Foi registrado pelo padre José Gonçalves Salvador, cognominado padre Perereca, que nas festas de casamento de dom Pedro I com dona Leopoldina, os ciganos fizeram muito sucesso com suas músicas, danças e cavalhadas, e com suas cantigas em língua própria. Ver tomo I:
... Finalmente entrarão pela Praça os Ciganos a cavalo, trazendo as mulheres na garupa; todas com ricos vestidos agaloados de ouro e prata, e, descendo dos cavalos, formarão, na frente do Camarim Real huma dança ao som de instrumentos, que foi grandemente applaudida pelo acerto, e primôr de sua execução” ...No tomo II este texto: ... E logo entrou na Praça a célebre dança dos ciganos, que compunha de seis homens, e outras tantas mulheres, vestidos todos com muita riqueza; pois tudo quanto apresentarão de ornato era veludo, e ouro, e sobre hum estrado fronteiro às Reais Pessoas executarão com muito garbo, e perfeição varias danças espanholas, que merecerão universal aceitação...
Agora, o texto de Mello Morais Filho:
Em frente do palanque real, o rico e humanitário cigano Joaquim Antônio Rabelo mandara arranjar, com maior galhardia imaginável, seu tablado de preciosas madeiras. [....] Joaquim Antônio Rabelo, a quem a história nacional talvez um dia considere como uma força das agitações políticas da independência, assim o determinara para o dançado dos ciganos, a quem ensaiara com entusiasmo artístico e vestira a sua custa [...]. Os ciganos guiando soberbos cavalos brancos arreados com igualdade e riqueza, balançando penachos implantados em discos de forma lunar, luzidos criados transpõem as barreiras. Os bailadores trazem as bailadeiras à garupa: morenas, sedutoras como as profetizas gentias [...] restabelecido o silêncio, voltaram jubilosos aos seus palanques. Preludiaram na guitarra uns acordes casados a vozes de uma cantilena em sua linguagem. A tradição olvidou a toada e as letras. Os dançarinos são aplaudidos e dom João VI, participando do agrado geral, fá-los virem a sua presença. Uma banda de música precede-os na maior ordem. Subindo o pavilhão, dois camaristas trazem, estendidos num coxim de púrpura, os prêmios que lhes eram destinados: patentes militares para os homens e jóias às mulheres. Joaquim Antônio Rabelo era sargento-mor de milícias da corte, foi-lhe concedida a mercê de melhoramentos de reforma no posto de tenente-coronel; e nomeados alferes agregados por ordenanças da corte, José Cardoso Rabelo, Manoel Lago, Antônio Vaz Salgado, Fernando José da Costa, José Luiz Mota, Baltazar Antônio Policarpo e João do Nascimento Natal.
O período de 1808-1818 foi a época de ouro dos ciganos no Brasil. Eles, olhados com bons olhos pela corte, por várias vezes foram chamados a participarem das festas de casamentos reais. Há registros que participaram do casamento da princesa da Beira com um infante da Espanha, conforme testemunho do Barão de Eschewege. Também outro evento foi registrado quando se elevou o Brasil a Reino Unido, em 1815. Tudo está nos livros de Mello Morais Filho, J. B. China (1874-1941), Rodrigo Corrêa Teixeira e outros.
Em João Dornas Filho, Ciganos em Minas Gerais, pp. 139-40 está: “Dom João VI pensou e levou a cabo a idéia de povoar com ciganos o vale do Jaguaribe, de que se origina a introdução do tracoma ou oftalmia egípcia no Brasil, principalmente no Ceará...”
[Nota: Na verdade, o tracoma nos veio da mãe África. Os ciganos também foram acusados de transmissores de lepra, agora já se sabe que a lepra, no-la trouxeram os escravos.]
No Estado de São Paulo, vários documentos atestam que os ciganos por lá passaram e lá estão. Augustin François César Prouvensal de Saint-Hilaire[43] (1779-1853) informa que topou com um grupo de ciganos em Urussanga e estabeleceu conversa com o capitão. Quando lhe disse da má impressão que traziam consigo, da sua esperteza nos negócios, o chefe respondeu-lhe: “É verdade, tentamos dar manta e, se conseguimos ou não, ficamos quietos; vocês têm a mesma intenção de nos enganar, porém quando não conseguem, espalham que foram iludidos por nós”.
J. B. d’Oliveira China[44] (1874-1941) relata as várias posturas contra os ciganos em São Paulo. Umas, mandando derrubar ranchos; outras, informando sobre ciganos vindo de Minas.
Francisca Roiz, cigana, em 1603 alimentou a comitiva do governador-geral, Francisco de Souza. Ela fora contratada pela Câmara para isso e saiu-se muito bem. Também montou a primeira loja em São Paulo. Na petição, a cigana se comprometia a ganhar apenas 10%, o que foi motivo de elogio, porque na terra paulistana imperava a idéia de lucros exagerados a curto prazo[45].
O Santo Oficio também importunou os ciganos por aqui. A doutora Laura de Mello e Souza, da USP, informa que Heitor Furtado de Mendonça, em sua 1a Visitação, em 1591, recebeu denúncias de ciganos por crimes contra a religião. Exemplo:
Violante Fernandes, viúva de um ferreiro cigano, também deportado de Portugal, agastada com as chuvas, dissera que “Deus mijava sobre ela que a desejava afogar”. Tareja Roiz ouvira da cigana Argelina que a cigana Maria Fernandes dissera: “que pesava de Deus porque chovia tanto”. In Primeira Visitação, Denunciações da Bahia, pp. 385-386. Tareja Roiz negava a existência do dia do juízo. Idem, p. 192. Apud Laura de Mello e Souza: O diabo e a Terra de Santa Cruz.
Os ciganos ainda hoje seguem sua sina. Espalhados em todo Brasil, uns ricos, outros pobres, extremamente pobres, fazem parte da nossa história, como nós outros fazemos. Temos de encontrar um modo de coexistência pacífica, afinal consideremos que todos nós temos alma um tanto cigana. Quem nunca sonhou em sair pelo mundo afora? E podemos ter, entre nossos antepassados, alguns de sangue boêmio. Aí estão Castro Alves, Juscelino Kubitschek, Cecília Meireles (talvez). Leiamos este trecho da poetisa, pleno de sabor e essência do espírito cigano:
Epigrama no 7
A tua raça de aventura,
quis ter a terra, o céu, o mar.
Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar...
A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.
A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.
(Viagem)
Lemos em d’Oliveira China, apud Mello Morais Filho, que descendem de João Costa Ramos os conhecidos Costas, notáveis cantadores e tocadores de viola, francos e generosos; o velho tronco Luiz Rabelo de Aragão perpetuou-se nos Rabelos, poetas e literatos, entrelaçou-se com a família Cabral, que nos tem dado oradores parlamentares, oficiais do exército, homens conceituados no magistério, no fórum e na tribuna sagrada (sacerdotes). A família dos Helenas. Os Cantanhede, homens vencedores em vários ramos de atividade (engenheiros, médicos, professores, administradores).
Dizem que o poeta lagartixa, Laurindo Rabelo (1816-1864) era de origem cigana e é dele (apesar de vozes discordantes) este soneto, onde faz belíssimo jogo de palavras envolvendo o tempo e conta:
Deus pede estrita conta do meu tempo,
É forçoso do tempo já dar conta;
Mas como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo,
Dado me foi bem tempo, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.
Ó vós que tendes tempo, sem ter conta,
Não gasteis esse tempo em passatempo,
Cuidai enquanto é tempo, em fazer conta.
Pois, aqueles que sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar de prestar conta,
Chorarão como eu, o não ter tempo.
Melo Morais Filho (op. cit.) coletou mais de 500 trovas de autoria dos ciganos. Ele as dividiu em três tipos: as elegíacas (kachardins), mais propriamente tristes e que primam pelo subjetivismo e pela sentença; líricas (kambulins) e as funerárias (merendins). Vejamos exemplo de cada uma delas, na ordem citada:
Até nas flores se encontra
A diferença na sorte!
Umas enfeitam a vida,
Outras enfeitam a morte!
De contínuo ver frustrar
Tanta crença e esperança,
Té de um Deus a fé se perde,
Quem espera e não alcança.
Como as aves vagueiam
No seio da noite escura,
Assim serão meus suspiros
Sobre a tua sepultura.
Ciganos em seu eterno deambular, absorveram palavras de outros povos e também os enriqueceram com o linguajar romani. Em nosso idioma, dizem que são mais de cem verbetes (v. caló, p. 273, dic. Aurélio, Séc. XXI). Localizamos muitos, apresentaremos alguns na seqüência, todos retirados do Dicionário Houaiss, exceto se indicadas outras fontes.
baldroca — s. f. 1. Uso: informal. Engano fraudulento; trapaça, logro. 2 Regionalismo: Bahia (São Francisco). transferência mútua e simultânea de coisas entre seus respectivos donos; troca, escambo.
banza — s. f. 1. Derivação: por extensão de sentido. Regionalismo: Portugal. Uso: informal. guitarra portuguesa. 2. (1868-1911) Regionalismo: Brasil. viola ou violão
calão — Do espanhol caló. cigano caló, ‘cigano’. (Dic. Aurélio)
calim — s. f. Mulher de calom ou cigano. Obs.: cf. calom
caló. — s. m. Gloss. Língua falada pelos ciganos na Espanha, em Portugal, e no Brasil; calão, cigano, gitano, lusitano-romani, romani-ibérico, romenho.[É diferente de qualquer outro romani, uma vez que conta com um vocabulário ativo de cerca de 100 palavras do romani, com estrutura do português e do espanhol.] (dic. Aurélio)
calom — s. m. Regionalismo: Brasil, m.q. cigano ('indivíduo de um povo itinerante').
endrômina — s. f. ardil, impostura, artimanha; andrômina.
gade — s. f. 1 Rubrica: etnografia. Ritual de origem oriental praticado nos casamentos dos ciganos, em que uma sacerdotisa rompe o hímen da noiva com o dedo e limpa o sangue numa camisa que o noivo mostra aos convidados. 2 Rubrica: vestuário. Regionalismo: Brasil. Uso: informal, m.q. camisa 'peça de roupa'.
gajão — s. m. 1 indivíduo muito esperto 2 Regionalismo: Brasil. Forma de tratamento respeitosa (equivalente a 'senhor') dada pelos ciganos a pessoas estranhas à sua raça.
gamar — verbo transitivo indireto e intransitivo. Regionalismo: Brasil. Uso: informal, Ficar encantado, apaixonar-se, vidrar. Ex.:
marar — verbo. Uso: informal, transitivo direto. Matar; esfaquear.
Para Cândido de Figueiredo, orig. indiana, através de um rad. már-, conforme explicitado por Delgado; segundo este autor, o vocábulo prov. entrou na língua portuguesa através dos t. do hind. incorporados ao vocabulário dos ciganos.
pechincha — s. f.1 interesse ou vantagem material considerável; 2 lucro que não se espera e/ou que não se merece; 3 qualquer coisa cujo preço é muito baixo; barganha.
pelego — s. m. 1 Regionalismo: Brasil. A pele do carneiro com a lã; 2 Regionalismo: Brasil. Essa pele colocada sobre os arreios para tornar o assento do cavaleiro mais confortável. 3 Regionalismo: Brasil. Tapete rústico feito dessa pele.
pileque — s. m. Regionalismo: Brasil. Estado de bêbedo; bebedeira.
piranha – s. f. Dança, música. Regionalismo: Goiás. Dança de roda infantil em que um participante, colocado no meio de um grupo, deve fazer o que os outros mandarem
pirar — verbo. Uso: informal, intransitivo. 1 Retirar-se discretamente, cair fora, dar o pira. Ex.: pirou rápido sem falar com ninguém. Intransitivo e pronominal. 2 Uso: informal. Empreender fuga; evadir(-se), safar(-se). Ex.: posto na cadeia, pirou (-se) no dia seguinte. Intransitivo. 3 Regionalismo: Brasil. Tornar(-se) louco ou meio louco; amalucar(-se). Ex.: começou a falar sozinho, depois pirou de vez.
Pirar tem origem duvidosa, segundo Nascentes, do cigano; JM registra, com dúvida, “do cigano pirar 'fugir'?”; AGC considera incerta a origem do vocábulo.
punguista — adjetivo e substantivo de dois gêneros. Uso: linguagem de delinqüentes.1 que ou o que pungueia; batedor de carteiras, carteirista, punga, trombadinha.
rangar — verbo. Regionalismo: Brasil. Uso: informal, transitivo direto e intransitivo. Tomar (algo) por alimento; alimentar-se, comer.
rango — s. m. Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Alimento servido numa refeição; comida; refeição.
rom — s. m. Designativo de cigano originário dos Bálcãs, entre os próprios ciganos.
romani — adjetivo e substantivo masculino. Relativo a ou um complexo de dialetos falados por ciganos de diferentes países e que genealogicamente pertencem à família indo-européia, ramo indo-irânico, sub-ramo indo-árico, grupo sânscrito; cigano. [Do cigano romani, cigano.] s. m. Gloss. 1.Língua indo-ariana falada pelos ciganos e que se subdivide em dialetos espalhados por diversos países do mundo. 2.Ver. caló. 3. vocábulo do romani. [Sin. ger.: cigano; tzigano. F. plural: romani] (Dic. Aurélio).
romenho — s. m. Rubrica: lingüística. Relativo a ou língua falada pelos ciganos de Portugal, e que não é mais que o espanhol influenciado pelo português e com aproximadamente 100 palavras do romani.
O professor Ático Vilas-Boas da Mota nos ensina (in Revista Planalto, Lingüística no 1, 2002, pp. 108-110) que as palavras gamar, rangar (rango), piranha (mulher vampiresca, dança de roda) são de origem cigana. Além disso introduziram em nosso léxico palavras que são empréstimos dos países por onde passaram: pileque (do romeno) e punguista (do romeno). E Manuel Viotti em Novo Dicionário da gíria brasileira, 3a ed. Livraria Tupã Editora, nos informa que os ciganos forneceram no conjunto, mais de 700 verbetes. (Nota de rodapé do Dicionário, citado).
É curioso (porque não é índole dos ciganos) mas é importante lembrar que em 1944, em plena guerra mundial, os ciganos de São Paulo levaram ao governo brasileiro sua solidariedade em face da agressão dos nazistas, ofereceram-se como voluntários em defesa da pátria, como também entregaram donativos em dinheiro e jóias de ouro, para auxiliar no custeio da defesa.
Como encerrar este trabalho? Dizendo que o Brasil não é a soma de portugueses, índios e negros. É muito mais! Existem milhares, quiçá milhões de outros indivíduos de outras etnias e entre elas sobressai a etnia cigana, ainda que seja invisível. Parafraseando o mestre Alexandre José de Mello Morais Filho[46]: Os ciganos foram a argamassa que uniu a raça brasileira. E no mesmo sentido preleciona João Dornas Filho (1902-1963), em Os ciganos em Minas Gerais. RIH-MG,V. III, ano 1948, p. 145: “Como se vê, não é tão pequena como se supõe a influência dos ciganos na vida brasileira. Não só na formação étnica e moral, mas também na formação política, eles têm concorrido para o nosso aprimoramento social”.
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